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domingo, 23 de setembro de 2018

• ARTIGO • Você crê em Deus?



Você crê em Deus?
Antes de responder simploriamente sim ou não a esta pergunta, faz-se necessária uma profunda reflexão. 
Falar em Deus remete à religiosidade. Todas as religiões adotam o princípio de que Deus é amor, entretanto os seus fiéis interpretam tal princípio de várias maneiras.  Uns vivem anunciando aos quatro ventos que Deus é o Senhor e o nosso Rei. Outros imaginam que Deus seja um ser repleto de luz, um grande espírito, o Mestre de todos os mestres, possuidor de tamanha sabedoria, que foi capaz de criar o Universo em sete dias. Merece, portanto, ser adorado e venerado por toda a humanidade. Outros ainda acreditam que Deus castiga quem o desobedece, perdoa os que se arrependem, e recompensa quem o agrada; inclusive ofertando automóveis, se levarmos em conta os inúmeros adesivos que colam em veículos. 
Mas é óbvio que as religiões não afirmam que Deus faça nada disso, pois castigar desobedientes e recompensar bajuladores é próprio dos tiranos. Tampouco é admissível que Deus queira ser Rei, e deseje ter súditos. Muito menos ser chamado de Senhor, afirmando sua autoridade, como um ser humano qualquer. E certamente Deus é indiferente a ser adorado ou não, pois a vaidade também pertence aos humanos, assim como ser sábio, bondoso ou fiel.
 Os conceitos e qualidades que os religiosos atribuem a Deus são sempre inerentes aos seres humanos. Essa constante humanização pode ser constatada na imagem do austero rei de cabelos brancos e longa barba, sentado num trono de nuvens, que representou Deus durante séculos. 
Há porém os que não conseguem imaginar Deus como o Senhor, como um rei autoritário e castigador, ou mesmo como uma entidade de luz. São os que consideram Deus a energia que move todo o Universo, ou seja, a Natureza. 
Pode-se afirmar, sem erro, que as suas leis eternas e imutáveis regem todas as coisas e seres, num processo automático e contínuo, através dos tempos.
Falamos assim do mesmo Deus, mas sem o mito religioso. Os pronomes e artigos que o designam são escritos com minúsculas, pois a Natureza não precisa ser adorada. Ela simplesmente ignora se a veneramos ou não, porque suas leis sempre foram e sempre serão cumpridas, em qualquer circunstância. Quem agir em desarmonia com elas, provoca em si mesmo o “castigo”, isso é, aquilo que está fazendo sai errado. Mas quem agir em harmonia com as leis de Deus, automaticamente será “recompensado”, isso é, aquilo que faz dá certo. Quem, ao ver o erro que cometeu, se arrepende sinceramente, o “perdão” de Deus será livrar-se da culpa, permitindo que dali em diante concentre toda a energia em reparar o erro e agir de modo certo, reativando amizades e abrindo novamente o seu caminho. 
Os que veem Deus dessa forma, podem afirmar verdadeiramente que ele está em toda parte, pois a matéria do Universo é energia condensada, formando os átomos e moléculas. A mesma energia que circula por nossos cérebros, dando-nos a sensação da individualidade. Portanto, é certo que somos parte de Deus, e nos movimentamos através das suas leis, que não dependem de religião alguma, de nenhuma oração, promessa ou magia, para que se cumpram.
Nesse caso, fazer uma prece a Deus pedindo a sua ajuda, é estabelecer contato consciente com essa energia cósmica, assumindo uma postura humilde diante do fantástico e constante movimento do Universo, do qual somos uma partícula infinitesimal. É aceitar a nossa pequenez, é reconhecer a limitação do conhecimento humano. 
O conhecimento das leis de Deus, que são as leis naturais, é cobiçado desde o momento em que o primeiro ser humano olhou para o céu e percebeu as estrelas. É perseguido, tanto pela Ciência quanto pela Religião, ambas pressupondo, cada uma a seu modo, um profundo conhecimento. 
Porém, se atentarmos bem, veremos que em toda a existência humana, o tanto que aprendemos é ainda muito pouco.
No século XVII, Newton enunciou três leis naturais que pareciam dar ao ser humano um grande domínio da Natureza. No entanto, a Ciência não para de evoluir, e postulados tidos como intocáveis numa época, em outra podem ser superados. Um exemplo foi a constatação feita por Einstein de que a menor distância entre dois pontos, nem sempre é – como parecia óbvio – a linha reta. 
Isso mostra que o ser humano somente conseguiu dominar parte das leis da Natureza, nunca as conheceu inteiramente. Ainda que esse limitado conhecimento o tenha possibilitado realizar as maravilhas tecnológicas atuais, como o computador e os celulares. 
Se na Idade Média tentássemos descrever o telefone celular, por exemplo, certamente seríamos tachados de bruxos. E quem sabe, daqui a 500 anos, tudo isso seja tão rudimentar quanto agora são as “trapizongas” produzidas naquela época? O que torna perfeitamente aceitável supor que, no futuro, a Ciência chegará a manipular fenômenos que atualmente não consegue explicar, como os paranormais e mediúnicos. Ou milagres, como os religiosos costumam chamar.
O estudo científico dos conhecimentos espirituais sempre foi cerceado pelos donos do poder, que até hoje só financiam experiências científicas que lhes traga lucro, e se possível, imediato. Por isso, todo o progresso tecnológico, através dos séculos, foi dirigido praticamente para duas finalidades: ampliar o poder bélico e alimentar o consumismo. Até mesmo a Medicina teve, e ainda tem, o seu avanço atrelado ao interesse lucrativo da indústria. 
Contudo, a evolução da Quântica permitiu à Ciência superar alguns postulados da Física tradicional, e, embora a passos lentos, novas leis da Natureza, que atuam nos pensamentos e emoções, vêm sendo cientificamente estudadas. Já é bastante sabido, por exemplo, que emoções e pensamentos influem diretamente na formação das células de todo o corpo. Com isso, é possível vislumbrar a cura de doenças através da telepatia e de outras formas de vibração mental que, em algumas religiões, sempre foi prática rotineira, embora, até hoje, sem o aval da Ciência. Mas chegará o dia em que a explicação de tais fenômenos engrossarão as páginas dos livros científicos, o que certamente representará um grande progresso humano.
A busca incansável do ser humano pelo domínio da Natureza, inclui também a tentativa de explicar a formação do Universo. Novamente, Ciência e Religião seguem caminhos praticamente opostos. 
Como tudo começou? As explicações religiosas são quase todas baseadas nos antigos mitos nascidos na Pré-História e na Idade Antiga. Pouco foi acrescentado. No mundo científico, a teoria mais aceita, a do Big Bang, diz em síntese que o Universo se formou a partir de uma grande explosão. É baseada na constatação de que as galáxias estão constantemente se afastando umas das outras, em consequência da explosão no início dos tempos, quando todas formavam um único ponto. 
No entanto, sabemos que todo efeito possui a sua causa. Esse ponto inicial teria, portanto, que ser constituído ao menos de um átomo, para ser possível a explosão, já que o nada é incapaz de explodir.
Mas como se originou esse primeiro átomo? De onde teria surgido?
A tais perguntas, simples e diretas, apesar das várias teorias que tentam formular respostas, o conhecimento humano ainda não conseguiu esclarecer definitivamente.   

Então, devolvo a pergunta: – Você crê em Deus?

Mande sua opinião,
ela será muito bem-vinda.

Envie para:
sendino.claudio@gmail.com

• HISTÓRIAS DAS COISAS • Pelas lentes da vida


HISTÓRIAS DAS COISAS – 13 

Pelas lentes da vida
Maron enxergava de longe, Ren só via de perto. Quando um estava no rosto, o outro ficava no bolso. Amigos inseparáveis, passavam o dia separados, somente tarde da noite conseguiam se falar. Quietos, na mesinha de cabeceira, finalmente podiam comentar as façanhas do dia. 
Maron era mais seguro, mais senhor de si, e feliz com o seu trabalho. Adorava olhar as paisagens da orla, sempre reparava no contorno das montanhas, que ia diminuindo pouco a pouco, até se juntar com o mar da lagoa. Nos fins de tarde, maravilhava-se com o pôr do Sol, sempre diferente do anterior. Observava os raios de luz transpassando as folhas das árvores, fascinava-se com os pássaros... Achava linda a natureza!
Gostava também de olhar as ruas, os automóveis, aquele monte de gente indo e vindo. Entretinha-se depois com a visão dos botões luminosos do elevador, meio desfocados, pois ele era especialista em ver ao longe. Gostava de ver a porta do elevador se abrir, e logo depois fechar-se novamente. Aguardava ansioso o momento de entrar naquela sala grande, onde podia apreciar muitos rostos em volta da mesa comprida, todos falando muito. Era a costumeira e demorada reunião diária. Bem mais tarde, faria todo o percurso de volta, vendo novamente o elevador, as ruas, o volante e os controles do automóvel. Esses de relance, enquanto através do para-brisa, se assustava um pouco com os inúmeros veículos que cruzavam a avenida velozmente, em direções opostas. Até chegar de volta à sua casa.    
Seu amigo Ren, ao contrário, vivia triste. Nas saídas à rua, permanecia quase o tempo todo no bolso, a não ser nos momentos de conferir uma conta, de assinar, ou de ler alguma revista ou jornal. Ele atuava mais em recintos fechados, principalmente à noite, dedicando-se à escrita e ao computador. Acostumou-se com a visão de seu dono, desenhista. Reparava nos detalhes dos esboços, rabiscados a lápis e depois transferidos para o computador, acompanhando de perto os traços riscando a tela, encontrando ou cruzando com outros, até formar uma figura completa. Em seguida assistia cada cor ocupar aos poucos um determinado espaço, até o desenho ficar pronto.
Em outros momentos, seguia bem de perto as palavras de um texto, que às vezes parecia não ter mais fim. Lia páginas e páginas, sempre em close, voltando às vezes para corrigir uma letra digitada errado, colocar uma vírgula ou um sinal qualquer.
Mas apesar de todos esses trabalhos, Ren não era feliz. Faltava-lhe alguma coisa, um objetivo na vida, uma realização pessoal... Não sabia o que, mas não lhe bastava viver sendo somente usado, e mais nada.
Enquanto Ren trabalhava à noite, Maron permanecia na mesa de cabeceira do quarto, quieto, com suas hastes dobradas sob o corpo, pronto para qualquer eventualidade. No entanto, sentia-se tranquilo, feliz com seu trabalho de ver de longe. Não desejava mais nada, não tinha os mesmos questionamentos do amigo.
O tempo passava, um completando o trabalho do outro. E os anos se encarregaram de formar uma sólida amizade entre eles. 
Certa noite, Maron chegou com uma notícia preocupante: no dia seguinte iria à ótica, para substituir suas lentes. Essa troca de lentes já havia acontecido antes, por isso não deveria ser motivo de preocupação. No ano passado, os dois foram juntos, e de lá voltaram felizes, ambos enxergando bem melhor. Mas agora havia uma diferença fundamental: Maron iria à ótica sozinho.  
“Por que não vamos juntos?” – Perguntou Ren, pressentindo que alguma coisa ruim estava por vir.
“Bobagem” – Comentou Maron, tranquilizando o amigo. “Vou só atualizar o grau da lente, como no ano passado! Depois irá você, na certa!”  
“Não sei, Maron... Não sei porque, mas estou muito preocupado...” – Repetia Ren. “Li um artigo sobre uma nova tecnologia, uma lente que tanto enxerga de perto quanto de longe... Uma coisa muito estranha!” 
Mas o amigo continuou otimista: “Que nada, Ren, as lentes modernas são de melhor qualidade! Vamos conseguir ver melhor, só isso! Fique tranquilo!” 
Ren finalmente sorriu: “É... Deve ser bobagem minha!” 
Manhã seguinte, cedinho, lá foi Maron, olhando o intenso movimento do trânsito, em direção à ótica, numa rua do Centro. Ao passar pela vitrine, compadeceu-se ao ver tantos semelhantes seus, ali deitados, aguardando uma oportunidade de enxergar o mundo. 
Logo o levaram para o laboratório, e, como numa anestesia geral, tudo se apagou.Quando acordou, a visão era muito estranha. Olhava as coisas de longe e também de perto. E todas estavam nítidas, como nunca tinha visto. Que coisa esquisita! 
Foi quando ouviu a voz do vendedor: “O senhor fez uma boa troca, as lentes multifocais são muito melhores!” – Aí ele entendeu tudo: suas novas lentes eram justamente aquelas, das quais o Ren tinha tanto medo! 
A cada coisa que focava, mais se surpreendia. E percebeu algo ainda mais estranho: ao olhar para distante através de sua parte superior, tudo era normal, como sempre foi. Mas à medida em que fosse baixando o olhar ia enxergando os detalhes, cada vez com mais nitidez, até se igualar à visão do seu amigo Ren. Uma coisa mágica, inacreditável! 
Maron pensou imediatamente no amigo. Durante todo o percurso de volta, tentou arranjar argumentos que justificassem a sobrevivência dos dois. Mas cada vez era mais evidente que ele agora ficaria sozinho. O que seria do Ren? Seria dispensado? Morreria? 
Atormentado com tais pensamentos, chegou ao quarto de sua casa. Foi posto ao lado do o amigo, na mesinha de cabeceira, mas antes que pudessem falar qualquer coisa, Ren foi levado ao rosto, por uns breves segundos, para ser testado. Em seguida Ren voltou para a mesinha e ele foi colocado novamente no rosto. Não tiveram tempo sequer de trocar uma palavra.
Maron voltou para a rua e ficou o resto do dia fora de casa. Estava tão aflito com o amigo, que nem se importou com a novidade de enxergar de perto. Não pensava em mais nada ao passar pelas ruas, pela subida do elevador, e durante a costumeira reunião na grande sala. Nenhum prazer sentiu em poder enxergar detalhes, assinar documentos, ler colunas de jornais, tampouco reparou no pôr do Sol. Nada disso conseguiu afastar a preocupação com o seu amigo, que pela primeira vez ficara em casa.
Retornou já no início da noite, muito cansado.
Diante do computador, pela primeira vez, ele – e não o Ren, examinou de perto as palavras dos textos e seguiu os traços de um desenho. Em vez de se alegrar, mais se entristeceu, cheio de compaixão pelo amigo. 
Na hora de costume, foi deixado na mesinha de cabeceira, e felizmente ainda se encontrava lá o seu amigo Ren. Mas estava visivelmente desolado. Assim que o viu chegar, disse em tom de brincadeira, disfarçando a profunda mágoa: 
“Você agora é moderno, hein? Vê de todas as distâncias!”
“É verdade” – Concordou Maron: “A lente que me colocaram é multifocal...”  
“Eu não presto mais para nada...” – Resmungou, bem baixinho, Ren. 
“Mas eu não quero me afastar de você, meu amigo. Nunca!” – Respondeu Maron, seriamente.
“Não depende de sua vontade. É o progresso tecnológico, não podemos impedir! Acho que essa é a última vez que nos vemos...” – Retrucou Ren.
O que ele falou fazia sentido. Ren foi confinado numa gaveta, longe de seu amigo. Nos dias seguintes, somente Maron foi usado, de manhã à noite. Enxergava com perfeição, desde os detalhes até o horizonte distante. No entanto, essa nova vida não lhe trouxe felicidade. Fazia o trabalho como rotina, apenas por obrigação. 
Toda noite, ao voltar para o seu canto, Maron esperava em vão encontrar o amigo. Tentava imaginar a dimensão da sua tristeza, trancado numa gaveta, sem poder ler nem acompanhar os desenhos sendo feitos... Se ao menos soubesse em qual gaveta, teria uma chance de vê-lo, de conversar com ele...
Mas a situação real era bem diferente do que Maron imaginava. Ele não foi jogado fora, com certeza. Tampouco trancado numa gaveta. Na verdade, Ren não estava mais naquela casa. Foi dado de presente ao jardineiro, que vinha semanalmente, e sempre se queixava de não enxergar as inscrições no verso dos pacotinhos de sementes. Com o Ren, passou a ler nitidamente. 
O jardineiro ficou radiante com o presente, e muito agradecido, tanto que comentou com a mulher: “Um óculos muito bom, eu posso enxergar todas as letrinhas!” 
E ela também se entusiasmou: “Que armação bonita! Deve ter custado muito caro! Foi um presentão!” 
Ren ficou mais animado com essas palavras, sentiu-se prestigiado e reconfortado em saber que teria uma nova casa. A perda do amigo, isso sim, o entristecia muito, assim como a ausência do computador, a coisa que mais gostava. Teria de se conformar com a telinha do celular do jardineiro. Até que achou interessante a tarefa de ler as inscrições nos pacotinhos de sementes.
Em poucos dias, Ren habituou-se com sua nova vida. Só era desconfortável viajar pendurado na gola da camisa do jardineiro, mas conseguiu decorar os nomes de várias plantas, e se distraía pesquisando os telefones na telinha do celular. Não fosse a saudade do amigo Maron, talvez a vida estivesse correndo bem. Compreendeu nessa hora que, de amigo, a gente não esquece. 
“Quem sabe,” – pensava, “um dia ainda o encontre...” – E com esse pensamento, lutava para deixar a saudade de lado.
Semanalmente, o jardineiro o levava à sua antiga casa, pendurado na gola da camisa. Ren sabia que o amigo Maron estava lá, mas o encontro dos dois nunca acontecia.    
Um dia, o jardineiro teve que ir na agropecuária, no Centro, para comprar novas sementes, e o levou, como sempre, pendurado na gola. 
Ao ser colocado no rosto para ler os textos dos pacotinhos de sementes, ouviu uma voz conhecida: “Bom dia, jardineiro, tudo bem com você?” – Era o dono de sua antiga casa! E bem defronte a seus olhos estava o amigo Maron. Foi um encontro tão inesperado e emocionante, que os dois ficaram se olhando, completamente mudos.   
Perguntou o dono da casa: “Gostando do óculos?” 
O jardineiro nem sabia como elogiar o presente: “Se estou gostando? É uma maravilha! Agora eu enxergo tudinho! Foi um presentão que o senhor me deu, pode acreditar!”
Durante o diálogo, Ren e Maron não pararam de se olhar, trocando palavras em silêncio – um poder que só as coisas possuem. 
Disse Ren: “Olá, Maron! Que bom ver você!”
Maron ficou embaçado de emoção. Mas respondeu: “Meu amigo, pensei que ainda estivesse trancado na gaveta. Vê-lo trabalhando novamente, me deixa muito feliz! E então, está gostando do que vê?” 
 “Agora, tenho novas tarefas. Gosto de ver plantas, sementes... Mas ainda vejo muita coisa virtual. Não em computador, mas no celular. A tela diminuiu um pouquinho...” 
Os dois riram muito, e lágrimas de alegria embaçaram suas lentes.
“É isso, meu amigo. Nossa vida é ajudar os humanos a ver o mundo”, disse Maron. “É uma missão muito nobre, você já pensou nisso?” 
Ren demorou-se refletindo, antes de responder: “Você falou uma verdade! Nós vivemos para ajudá-los a viver... Claro, é uma nobre missão! Nunca havia pensado assim...”
Mas o diálogo foi interrompido bruscamente com a despedida dos dois homens. O jardineiro voltou a agradecer o valioso presente, pendurou Ren na gola da camisa e saiu para a rua. 
Só houve tempo para Maron gritar: “Ren, meu amigo! Seja feliz! Nós nos encontraremos quando for possível” 
Durante todo o caminho, Ren pensou nas palavras de seu amigo. Elas o levaram a descobrir o quanto é mesmo nobre e valioso o ato de ajudar um ser humano a enxergar o mundo. A consciência dessa verdade transformou sua vida. Acabou sua tristeza, finalmente encontrara aquela coisa que faltava, aquele objetivo de viver. Sentiu-se então, pela primeira vez realizado, calmo e seguro, como sempre foi o seu amigo Maron. 
Que bom se puder revê-lo de vez em quando...

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ela será muito bem-vinda.
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sendino.claudio@gmail.com 

• HUMOR & CARTUNS • O trânsito brasileiro


Os cartuns a seguir ilustraram o livro 
O trânsito brasileiro e seu novo código - Análise e sugestões (de Celso Franco, ex-diretor do Detran do Rio de Janeiro e ex-colunista do caderno Carro & Moto do Jornal do Brasil).
As 21 charges selecionadas estão sendo postadas mensalmente no blog, deste maio até setembro de 2018.


• As legendas das charges são frases retiradas do livro.
Veículos com suas dimensões ou de sua carga superiores aos limites estabelecidos legalmente: infração grave.

Conduzir motocicleta, sem usar capacete de segurança com viseira ou óculos de proteção e vestuário de acordo com as normas: infração média.

O artigo 257 estabelece a quem são aplicadas as penalidades.

Imagino o que seria de mim, se não pudesse disciplinar os veículos do corpo diplomático, por exemplo, removendo-os quando em estacionamento abusivo e prejudicial.

Anjos do Asfalto

• ELES SÃO UNS GATOS! • Três fases de Miguelito

Miguelito é um gato que evoluiu muito depressa.
As fotos demonstram sua evolução.

Primeira foto: ainda muito criança, 
Miguelito  já se mostrava preocupado com o futuro.

Segunda foto: em plena juventude, 
Miguelito demonstra como era impetuoso e confiante em si mesmo.

Terceira foto: tendo já adquirido maturidade e cultura, 
Miguelito ficou fascinado ao ler Cerventes.






• INFORMAÇÕES PROFISSIONAIS • Sendino

SENDINO
(Claudio Fabiano de Barros Sendin)

• Diretor de arte publicitário, trabalhou em Criação, nas principais agências do Rio de Janeiro, de São Paulo, e num estúdio de publicidade em Barcelona. 
Durante essa fase, participou da criação de campanhas publicitárias para muitas empresas e instituições importantes, entre elas: Volkswagen, Vasp, Gillette, Coca-Cola, Banco do Brasil, Petrobras, Merrel (Cepacol), Fleischmann Royal, Bradesco Seguros, Prefeitura do Rio de Janeiro. 
Algumas dessas campanhas e peças isoladas receberam medalhas de ouro, prata e bronze, no Prêmio Colunistas.

• Cartunista publicitário, criou personagens bem-sucedidos para publicidade, como Bond Boca, da Cepacol, em parceria com o redator Alexandre Machado, e o Bocão, da Fleischmann Royal, em parceria com a equipe de marketing da Norton. Criou todos os cartuns da campanha Minimania, para a Coca-Cola e Bob’s.

• Cartunista editorial, ilustrou muitas matérias na revista Domingo (do antigo Jornal do Brasil), onde criou a capa sobre “mergulhadores na Baía de Guanabara a procura de barcos naufragados”. Na revista Veja Rio, criou 16 capas, muitas ilustrações de matérias, e ilustrou com charges as crônicas do crítico musical Sérgio Cabral, durante mais de cinco anos. Para o jornal O Globo, criou muitas capas para os cadernos “Vestibular”. 

• Diretor de arte editorial, fez os projetos gráficos de várias revistas corporativas: Hospedagem Brasil (para a Associação Brasileira da Indústria de Hotéis), Rumos Práticos (para o Conapra – Conselho Nacional de Praticagem), Paissandu Notícias (para o Paissandu Atlético Clube – RJ), Biólogos (para o CRBio-02 – Conselho Regional de Biologia), Revista da Casa de Eapaña (Órgão de divulgação da cultura espanhola no Rio de Janeiro), e Revista do Clube Naval (Para o Clube Naval do Rio de Janeiro).  

• Autor de três livros de cartuns: 
A fábrica e o povo (Massao Ohno – Ricardo Redisch Editores), com cartuns que ilustram um texto de Eça de Queirós.
Viagem de volta, (Repro–SP), com desenhos surrealistas de aviões inspirados nos Beatles, e poemas de Nei Leandro de Castro inspirados nos desenhos e nos Beatles.
Anedotas populares (Editora Taurus), com cartuns em forma de quadrinhos sobre anedotas contadas pelo povo.

• Contato com Sendino, através do e-mail:

sendino.claudio@gmail.com

domingo, 22 de julho de 2018

• HISTÓRIAS DAS COISAS • A velha Marrom


A VELHA MARROM

Desde que deixou o trabalho, um ano atrás, Marrom permaneceu o tempo todo no quarto. Já velha, seu courvin marrom era então uma pele doente, que soltava pedaços em tudo o que encostasse. Ainda assim mantinha um ar imponente e oferecia muito conforto ao seu dono, um humano que se habituou a recostar o corpo em suas almofadas, à noite, exausto do trabalho. Ela o recebia sempre com muito carinho, curvando-se para aconchegá-lo e ninando o seu sono. Muitas vezes, só nas altas da madrugada é que ele acordava e ia passar o restinho da noite na cama.
Assim era a vida da Marrom, que já exibia mais a cor pálida de seu forro interno, do que o bonito e reluzente marrom de quando era nova. 
Vivia de recordações. Lembrava-se de sua juventude, quando sobressaía, suntuosa, entre mil poltronas de escritório, estantes e outros móveis da loja. Ela se achava uma nobre, nascida para fazer parte da mesa de um executivo importante, quem sabe do presidente da empresa. Tinha gabarito para isso, pois fosse lá quem entrasse naquela loja, impossível seria ignorá-la. Sempre arrancava dos compradores olhares de admiração, e outros invejosos, das demais poltronas.  
Foi nessa época que seu dono a viu pela primeira vez. Amor à primeira vista. Desde que entrou na loja, não tirou mais os olhos dela. Examinou pacientemente dezenas de poltronas, de todos os modelos, e após sentar-se em cada uma, para ela é que voltava os olhos. Vendo-a de longe, parecia fascinado. Marrom, por sua vez, também se encantou por aquele homem tão simpático. A cada olhar que ele lhe dava, mais crescia a certeza de que o estava conquistando, que aquele seria o seu dono tão sonhado.
Pareceu-lhe um importante executivo. Sem dúvida, um homem rico, a julgar por sua roupa em tons de beje, a camisa chiquérrima, e no entanto despojada, como são as roupas dos ricos que não gostam de ostentar riqueza. Começou então a sonhar como seria o seu escritório, com a mesa imponente de jacarandá, coberta por um espesso vidro de cristal, todo trabalhado com ornados em baixo-relevo. 
E não é que, no meio desse sonho, o homem realmente se aproximou para testá-la? Ela o recebeu com todo o conforto que possuía, e ele se aninhou em suas almofadas pela primeira vez, estampando no semblante uma enorme satisfação. Finalmente, entre todas, a escolheu: “Eu quero esta marrom.” – Sacramentou a compra com o vendedor, e foram os dois à sala ao lado, cuidar dos papéis.
Marrom era só felicidade. Iniciou um sonho, no qual era transportada para um prédio suntuoso, todo de vidro fumê... Não, ao contrário, um prédio todo art-nouveaux... Não, melhor ainda, um grande prédio estilo greco-romano, com paredes de pedras e chão de mármore...
No dia seguinte, Marrom foi embalada, colocada num caminhão, e depois de uma viagem que jamais terminava, parou diante de uma casa. Assim que deixou o caminhão, através da embalagem, percebeu tratar-se de uma residência, não o prédio de uma grande empresa, como sonhara. Pouco depois, desembrulhada, viu-se numa bancada comprida, de madeira branca, defronte a um computador. Tudo muito diferente da sala e da mesa imponente que imaginara. 
Aquilo nem parecia escritório de empresa, tratava-se de um estúdio pertencente a um artista gráfico. A princípio, Marrom teve uma grande decepção: a realidade era o oposto do seu sonho. Mas os poucos, Marrom foi encontrando componentes também inesperados, mas agradáveis. Reparou no computador de altíssima qualidade, com vários periféricos em volta. Na bancada, lisa mas bem construída, com bonitos potes cheios de materiais de arte, pinceis, lapiseiras, canetas e lápis de cor. Ao correr o olhar pelo recinto, viu paredes repletas de quadros com originais de desenhos. 
“Ora,” – pensou. – “Um artista não é menos importante do que um executivo! De repente, pode ser até mais...” 
E assim, Marrom foi aceitando a mudança e transformando seu antigo sonho, numa realidade também muito prazerosa. Percebeu logo que aquela inesperada morada, em nada desfez a relação com seu amado dono. Ele continuou a se aconchegar em suas almofadas, onde permanecia horas e horas trabalhando, muitas vezes até a madrugada, só se levantando para para ir ao banheiro ou fazer refeições. Fosse um executivo, não se dedicaria tanto tempo a ela.
Assim se passaram dois anos. Marrom foi envelhecendo mais rapidamente que o esperado, pois apesar de ser muito suntuosa e extremamente confortável, sua pele era de um courvin de má qualidade, quebradiço, e fragmentos de pele começaram a se soltar frequentemente.
A primeira a se tocar com esse fato foi a esposa de seu dono, que o alertou sobre a necessidade de estofá-la. Mas para ele isso era irrelevante. Que se danasse a pele encarquilhada e a soltura do courvin, o importante é que a Marrom era muitíssimo confortável. Ele simplesmente a adorava, assim mesmo, do jeito que ela era.  
Muito amada por seu dono, Marrom sentia-se imponente e majestosa no estúdio. Ele, porém, queixava-se constantemente de um problema na coluna, que o deixava com muita tonteira e dores. Marrom soube disso ao ouvir as conversas dele com a esposa. Soube também que o problema era devido à postura. E isso tinha a ver diretamente com ela –, fato que a deixou muito preocupada. Estaria mesmo causando mal à coluna de seu dono? Seria possível que ela, elogiada por ofertar tanto conforto e bem-estar, na verdade estava sendo a causadora desse mal?
O mau pressentimento de Marrom tinha fundamento. Certo dia ela ouviu a esposa de seu dono o aconselhar a comprar outra poltrona. 
“Mas eu gosto tanto dela!” – Lamentou. – “Ela é tão confortável...”
Marrom entrou em pânico. A ameaça de ser trocada por outra a apavorou, e só restava rezar para que não fosse descartada de vez. Por outro lado, também não conseguiria ser feliz, sabendo-se causadora de tanto mal. Passou a viver, então, um dilema insuportável.
Até que chegou o dia fatídico. Nesse dia, seu dono não apareceu no estúdio, durante toda a manhã. 
“O que teria acontecido?” – Pensava Marrom, cada vez mais angustiada, pressentindo que algo de muito ruim estava por acontecer. 
E aconteceu mesmo. No meio da tarde, eis que entram no estúdio o seu dono acompanhado da esposa e... de um grande pacote. Logo que foi desembrulhado, revelou-se o corpo de uma poltrona. Estava chegando para assumir o seu lugar. 
A esposa confirmou: “Querido, essa é totalmente anatômica, vai ser o fim de suas dores na coluna.” 
Marrom viu ali o seu fim. Seria, talvez, doada por caridade, ou pior ainda: desmontada e jogada no lixo. Começou a chorar muito, mas nem seu dono nem a esposa perceberam.  A partir desse dia, seu dono só usava a nova poltrona – a Preta –, para trabalhar. 
Marrom foi levada para o quarto, onde permaneceu mais de um ano. Mas antes de ser levada, pôde ver de relance a tal cadeira anatômica, o suficiente para guardar sua figura: “Ela é magricela e toda empinada! E como é feia!” – Pensou – “Como é que uma coisa assim pode ser anatômica?” – E concluiu: “Não sei como o meu dono foi gostar daquilo, só pode ter sido influenciado pela mulher!”
Marrom a essa altura estava já envelhecendo. Isso era mais notório em sua pele, que não parava de soltar pedaços, tornando feio o lindo marrom que tinha quando jovem.
Nos dias seguintes, seu dono adotou de vez a nova rotina: trabalhava o dia inteiro na Preta, a anatômica, e procurava Marrom somente tarde da noite, quando tinha insônia. Nessas horas, buscava nela o repouso que precisava, esticando as pernas, recostado em suas almofadas macias, até recuperar o sono. E Marrom o recebia, apesar de tudo, com o conforto de sempre. Mas também com um certo constrangimento, por sua pele tão descascada. Se bem que, quanto a esse detalhe, ele não estava nem aí.
Essas ocasiões tornaram-se cada vez mais frequentes. Seu dono usava a Preta unicamente para trabalhar no estúdio, mas gostava mesmo era dela, a velha Marrom, que o deixava relaxar com total conforto. Ele realmente a amava.
Tal situação, que parecia irreversível, depois de um ano teve uma reviravolta. 
A tal cadeira “anatômica” em nada melhorou o sofrimento de seu dono, e ele acabou se desiludindo. Exames médicos constataram que sua coluna continuava com o mesmo problema de antes. Teve então um insight, e resolveu construir um batente, colocando o computador e o teclado bem mais altos. Assim ele corrigiu sua postura, e por incrível que pareça, simplesmente resolveu o problema. As dores aliviaram de imediato. A causadora do mal era, portanto, a posição do computador, e não a poltrona. 
Com isso, a Preta foi aposentada e Marrom chamada de volta ao seu antigo lugar. Marrom fez o caminho de volta, eufórica. Durante o trabalho, revelou que seu assento era mais baixo do que o da Preta, melhorando ainda mais a postura de seu dono, que passou a trabalhar melhor, sem dores, e no conforto que ele tanto gostava.
Criou-se aí um outro problema: seu dono já estava acostumado, à noite, a buscar o sono em seus braços. Sem ela no quarto, sentia muito a sua falta quando tinha insônia. A única solução foi levar Marrom diariamente do estúdio para o quarto, logo que terminasse o expediente de trabalho. Ele a empurrava com carinho, deslizando suas rodas pelos cômodos, às vezes esbarrando nos portais, mas ela sempre chegava ilesa ao quarto. Assim, Marrom pôde servir dia e noite o seu amado dono.
No entanto, uma nova e constante preocupação passou a atormentá-la: o que seria da Preta? Afinal, ela não foi culpada de nada, apenas teve o azar de ser escolhida indevidamente. Ficou provado que o mal não era causado por nenhuma das duas poltronas! 
Avessa às injustiças, ela não descansou até conseguir intuir seu dono a manter a Preta no estúdio, abrindo mão, assim, do seu privilégio. Preferiu voltar à rotina de atuar somente à noite, no quarto. A Preta, quando soube de tamanho altruísmo, muito comovida, enviou à Marrom uma linda mensagem de agradecimento, onde propôs uma alternância de funções, com as duas se revezando, no quarto e no estúdio. Mas a Marrom sabia muito bem que a poltrona Preta não teria condições de oferecer o mesmo conforto que ela. Por isso agradeceu a gentileza, mas insistiu em continuar somente no quarto. 
A velha Marrom costumava repassar sempre essa história em seu pensamento. Nunca se arrependeu, ao contrário, sentia-se orgulhosa e feliz de ter optado por ficar somente no quarto, a espera das visitas noturnas de seu dono. Sentia a felicidade de quem agiu honestamente. 
Como um prêmio ao seu amor e dedicação, recentemente Marrom foi encaminhada a um hospital, para substituir cirurgicamente a pele estragada. Seu dono escolheu um tecido que lhe caía bem, muito bonito e de ótima qualidade, e o estofador fez uma operação perfeita. 
Hoje em dia, com a pele nova e reluzente, ela é uma nova Marrom. Continua muito orgulhosa e mais que nunca majestosa, cumprindo com perfeição a nobre tarefa de dar relaxamento e conforto a seu dono, nas noites de insônia.


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• HUMOR & CARTUNS • O trânsito brasileiro



Os cartuns a seguir ilustraram o livro 
O trânsito brasileiro e seu novo código - Análise e sugestões (de Celso Franco, ex-diretor do Detran do Rio de Janeiro e ex-colunista do caderno Carro & Moto do Jornal do Brasil).
As 21 charges selecionadas estão sendo postadas mensalmente no blog, deste maio até agosto de 2018.


• As legendas das charges são frases retiradas do livro.
Fazer ou deixar que se faça reparo em veículo na via pública: infração grave.

De um modo geral subentende-se que onde não se pode estacionar, não se deve parar

Ultrapassar outro veículo pelo acostamento: infração grave.

Transpor, sem autorização, bloqueio viário com ou sem sinalização, é uma infração grave.

Não é raro recusarem o direito de passagem

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