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domingo, 22 de julho de 2018

• HISTÓRIAS DAS COISAS • A velha Marrom


A VELHA MARROM

Desde que deixou o trabalho, um ano atrás, Marrom permaneceu o tempo todo no quarto. Já velha, seu courvin marrom era então uma pele doente, que soltava pedaços em tudo o que encostasse. Ainda assim mantinha um ar imponente e oferecia muito conforto ao seu dono, um humano que se habituou a recostar o corpo em suas almofadas, à noite, exausto do trabalho. Ela o recebia sempre com muito carinho, curvando-se para aconchegá-lo e ninando o seu sono. Muitas vezes, só nas altas da madrugada é que ele acordava e ia passar o restinho da noite na cama.
Assim era a vida da Marrom, que já exibia mais a cor pálida de seu forro interno, do que o bonito e reluzente marrom de quando era nova. 
Vivia de recordações. Lembrava-se de sua juventude, quando sobressaía, suntuosa, entre mil poltronas de escritório, estantes e outros móveis da loja. Ela se achava uma nobre, nascida para fazer parte da mesa de um executivo importante, quem sabe do presidente da empresa. Tinha gabarito para isso, pois fosse lá quem entrasse naquela loja, impossível seria ignorá-la. Sempre arrancava dos compradores olhares de admiração, e outros invejosos, das demais poltronas.  
Foi nessa época que seu dono a viu pela primeira vez. Amor à primeira vista. Desde que entrou na loja, não tirou mais os olhos dela. Examinou pacientemente dezenas de poltronas, de todos os modelos, e após sentar-se em cada uma, para ela é que voltava os olhos. Vendo-a de longe, parecia fascinado. Marrom, por sua vez, também se encantou por aquele homem tão simpático. A cada olhar que ele lhe dava, mais crescia a certeza de que o estava conquistando, que aquele seria o seu dono tão sonhado.
Pareceu-lhe um importante executivo. Sem dúvida, um homem rico, a julgar por sua roupa em tons de beje, a camisa chiquérrima, e no entanto despojada, como são as roupas dos ricos que não gostam de ostentar riqueza. Começou então a sonhar como seria o seu escritório, com a mesa imponente de jacarandá, coberta por um espesso vidro de cristal, todo trabalhado com ornados em baixo-relevo. 
E não é que, no meio desse sonho, o homem realmente se aproximou para testá-la? Ela o recebeu com todo o conforto que possuía, e ele se aninhou em suas almofadas pela primeira vez, estampando no semblante uma enorme satisfação. Finalmente, entre todas, a escolheu: “Eu quero esta marrom.” – Sacramentou a compra com o vendedor, e foram os dois à sala ao lado, cuidar dos papéis.
Marrom era só felicidade. Iniciou um sonho, no qual era transportada para um prédio suntuoso, todo de vidro fumê... Não, ao contrário, um prédio todo art-nouveaux... Não, melhor ainda, um grande prédio estilo greco-romano, com paredes de pedras e chão de mármore...
No dia seguinte, Marrom foi embalada, colocada num caminhão, e depois de uma viagem que jamais terminava, parou diante de uma casa. Assim que deixou o caminhão, através da embalagem, percebeu tratar-se de uma residência, não o prédio de uma grande empresa, como sonhara. Pouco depois, desembrulhada, viu-se numa bancada comprida, de madeira branca, defronte a um computador. Tudo muito diferente da sala e da mesa imponente que imaginara. 
Aquilo nem parecia escritório de empresa, tratava-se de um estúdio pertencente a um artista gráfico. A princípio, Marrom teve uma grande decepção: a realidade era o oposto do seu sonho. Mas os poucos, Marrom foi encontrando componentes também inesperados, mas agradáveis. Reparou no computador de altíssima qualidade, com vários periféricos em volta. Na bancada, lisa mas bem construída, com bonitos potes cheios de materiais de arte, pinceis, lapiseiras, canetas e lápis de cor. Ao correr o olhar pelo recinto, viu paredes repletas de quadros com originais de desenhos. 
“Ora,” – pensou. – “Um artista não é menos importante do que um executivo! De repente, pode ser até mais...” 
E assim, Marrom foi aceitando a mudança e transformando seu antigo sonho, numa realidade também muito prazerosa. Percebeu logo que aquela inesperada morada, em nada desfez a relação com seu amado dono. Ele continuou a se aconchegar em suas almofadas, onde permanecia horas e horas trabalhando, muitas vezes até a madrugada, só se levantando para para ir ao banheiro ou fazer refeições. Fosse um executivo, não se dedicaria tanto tempo a ela.
Assim se passaram dois anos. Marrom foi envelhecendo mais rapidamente que o esperado, pois apesar de ser muito suntuosa e extremamente confortável, sua pele era de um courvin de má qualidade, quebradiço, e fragmentos de pele começaram a se soltar frequentemente.
A primeira a se tocar com esse fato foi a esposa de seu dono, que o alertou sobre a necessidade de estofá-la. Mas para ele isso era irrelevante. Que se danasse a pele encarquilhada e a soltura do courvin, o importante é que a Marrom era muitíssimo confortável. Ele simplesmente a adorava, assim mesmo, do jeito que ela era.  
Muito amada por seu dono, Marrom sentia-se imponente e majestosa no estúdio. Ele, porém, queixava-se constantemente de um problema na coluna, que o deixava com muita tonteira e dores. Marrom soube disso ao ouvir as conversas dele com a esposa. Soube também que o problema era devido à postura. E isso tinha a ver diretamente com ela –, fato que a deixou muito preocupada. Estaria mesmo causando mal à coluna de seu dono? Seria possível que ela, elogiada por ofertar tanto conforto e bem-estar, na verdade estava sendo a causadora desse mal?
O mau pressentimento de Marrom tinha fundamento. Certo dia ela ouviu a esposa de seu dono o aconselhar a comprar outra poltrona. 
“Mas eu gosto tanto dela!” – Lamentou. – “Ela é tão confortável...”
Marrom entrou em pânico. A ameaça de ser trocada por outra a apavorou, e só restava rezar para que não fosse descartada de vez. Por outro lado, também não conseguiria ser feliz, sabendo-se causadora de tanto mal. Passou a viver, então, um dilema insuportável.
Até que chegou o dia fatídico. Nesse dia, seu dono não apareceu no estúdio, durante toda a manhã. 
“O que teria acontecido?” – Pensava Marrom, cada vez mais angustiada, pressentindo que algo de muito ruim estava por acontecer. 
E aconteceu mesmo. No meio da tarde, eis que entram no estúdio o seu dono acompanhado da esposa e... de um grande pacote. Logo que foi desembrulhado, revelou-se o corpo de uma poltrona. Estava chegando para assumir o seu lugar. 
A esposa confirmou: “Querido, essa é totalmente anatômica, vai ser o fim de suas dores na coluna.” 
Marrom viu ali o seu fim. Seria, talvez, doada por caridade, ou pior ainda: desmontada e jogada no lixo. Começou a chorar muito, mas nem seu dono nem a esposa perceberam.  A partir desse dia, seu dono só usava a nova poltrona – a Preta –, para trabalhar. 
Marrom foi levada para o quarto, onde permaneceu mais de um ano. Mas antes de ser levada, pôde ver de relance a tal cadeira anatômica, o suficiente para guardar sua figura: “Ela é magricela e toda empinada! E como é feia!” – Pensou – “Como é que uma coisa assim pode ser anatômica?” – E concluiu: “Não sei como o meu dono foi gostar daquilo, só pode ter sido influenciado pela mulher!”
Marrom a essa altura estava já envelhecendo. Isso era mais notório em sua pele, que não parava de soltar pedaços, tornando feio o lindo marrom que tinha quando jovem.
Nos dias seguintes, seu dono adotou de vez a nova rotina: trabalhava o dia inteiro na Preta, a anatômica, e procurava Marrom somente tarde da noite, quando tinha insônia. Nessas horas, buscava nela o repouso que precisava, esticando as pernas, recostado em suas almofadas macias, até recuperar o sono. E Marrom o recebia, apesar de tudo, com o conforto de sempre. Mas também com um certo constrangimento, por sua pele tão descascada. Se bem que, quanto a esse detalhe, ele não estava nem aí.
Essas ocasiões tornaram-se cada vez mais frequentes. Seu dono usava a Preta unicamente para trabalhar no estúdio, mas gostava mesmo era dela, a velha Marrom, que o deixava relaxar com total conforto. Ele realmente a amava.
Tal situação, que parecia irreversível, depois de um ano teve uma reviravolta. 
A tal cadeira “anatômica” em nada melhorou o sofrimento de seu dono, e ele acabou se desiludindo. Exames médicos constataram que sua coluna continuava com o mesmo problema de antes. Teve então um insight, e resolveu construir um batente, colocando o computador e o teclado bem mais altos. Assim ele corrigiu sua postura, e por incrível que pareça, simplesmente resolveu o problema. As dores aliviaram de imediato. A causadora do mal era, portanto, a posição do computador, e não a poltrona. 
Com isso, a Preta foi aposentada e Marrom chamada de volta ao seu antigo lugar. Marrom fez o caminho de volta, eufórica. Durante o trabalho, revelou que seu assento era mais baixo do que o da Preta, melhorando ainda mais a postura de seu dono, que passou a trabalhar melhor, sem dores, e no conforto que ele tanto gostava.
Criou-se aí um outro problema: seu dono já estava acostumado, à noite, a buscar o sono em seus braços. Sem ela no quarto, sentia muito a sua falta quando tinha insônia. A única solução foi levar Marrom diariamente do estúdio para o quarto, logo que terminasse o expediente de trabalho. Ele a empurrava com carinho, deslizando suas rodas pelos cômodos, às vezes esbarrando nos portais, mas ela sempre chegava ilesa ao quarto. Assim, Marrom pôde servir dia e noite o seu amado dono.
No entanto, uma nova e constante preocupação passou a atormentá-la: o que seria da Preta? Afinal, ela não foi culpada de nada, apenas teve o azar de ser escolhida indevidamente. Ficou provado que o mal não era causado por nenhuma das duas poltronas! 
Avessa às injustiças, ela não descansou até conseguir intuir seu dono a manter a Preta no estúdio, abrindo mão, assim, do seu privilégio. Preferiu voltar à rotina de atuar somente à noite, no quarto. A Preta, quando soube de tamanho altruísmo, muito comovida, enviou à Marrom uma linda mensagem de agradecimento, onde propôs uma alternância de funções, com as duas se revezando, no quarto e no estúdio. Mas a Marrom sabia muito bem que a poltrona Preta não teria condições de oferecer o mesmo conforto que ela. Por isso agradeceu a gentileza, mas insistiu em continuar somente no quarto. 
A velha Marrom costumava repassar sempre essa história em seu pensamento. Nunca se arrependeu, ao contrário, sentia-se orgulhosa e feliz de ter optado por ficar somente no quarto, a espera das visitas noturnas de seu dono. Sentia a felicidade de quem agiu honestamente. 
Como um prêmio ao seu amor e dedicação, recentemente Marrom foi encaminhada a um hospital, para substituir cirurgicamente a pele estragada. Seu dono escolheu um tecido que lhe caía bem, muito bonito e de ótima qualidade, e o estofador fez uma operação perfeita. 
Hoje em dia, com a pele nova e reluzente, ela é uma nova Marrom. Continua muito orgulhosa e mais que nunca majestosa, cumprindo com perfeição a nobre tarefa de dar relaxamento e conforto a seu dono, nas noites de insônia.


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• HUMOR & CARTUNS • O trânsito brasileiro



Os cartuns a seguir ilustraram o livro 
O trânsito brasileiro e seu novo código - Análise e sugestões (de Celso Franco, ex-diretor do Detran do Rio de Janeiro e ex-colunista do caderno Carro & Moto do Jornal do Brasil).
As 21 charges selecionadas estão sendo postadas mensalmente no blog, deste maio até agosto de 2018.


• As legendas das charges são frases retiradas do livro.
Fazer ou deixar que se faça reparo em veículo na via pública: infração grave.

De um modo geral subentende-se que onde não se pode estacionar, não se deve parar

Ultrapassar outro veículo pelo acostamento: infração grave.

Transpor, sem autorização, bloqueio viário com ou sem sinalização, é uma infração grave.

Não é raro recusarem o direito de passagem

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• ELES SÃO UNS GATOS! • Duas gatas

Os fatos desta história são reais e contam como duas gatinhas se conheceram. 
Uma, Violeta, nome dado pela cor de seus olhos vesguinhos. Seu corpo era branquinho, com as extremidades escuras. Linda. Violeta era medrosa, mas terna e amorosa como nunca se viu.
A outra é a Sarinha, também linda, toda parda amarelada. Sarinha sempre foi muito segura de si, senhora das situações em que se metia.

Neste mês, o primeiro encontro das duas, flagrado no quintal de casa. Quase terminou em pancadaria. Felizmente, as duas tiveram bom senso e se afastaram. Mas nunca se esqueceram.

Finalmente, um dia as duas se reencontraram, e foram flagradas justamente quando fizeram as pazes.






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• OUÇA FABYOLA SENDINNO • Certas coisas


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Fabyola Sendinno • CERTAS COISAS

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* INFORMAÇÕES PROFISSIONAIS • Sendino

SENDINO
(Claudio Fabiano de Barros Sendin)

• Diretor de arte publicitário, trabalhou em Criação, nas principais agências do Rio de Janeiro, de São Paulo, e num estúdio de publicidade em Barcelona. 
Durante essa fase, participou da criação de campanhas publicitárias para muitas empresas e instituições importantes, entre elas: Volkswagen, Vasp, Gillette, Coca-Cola, Banco do Brasil, Petrobras, Merrel (Cepacol), Fleischmann Royal, Bradesco Seguros, Prefeitura do Rio de Janeiro. 
Algumas dessas campanhas e peças isoladas receberam medalhas de ouro, prata e bronze, no Prêmio Colunistas.

• Cartunista publicitário, criou personagens bem-sucedidos para publicidade, como Bond Boca, da Cepacol, em parceria com o redator Alexandre Machado, e o Bocão, da Fleischmann Royal, em parceria com a equipe de marketing da Norton. Criou todos os cartuns da campanha Minimania, para a Coca-Cola e Bob’s.

• Cartunista editorial, ilustrou muitas matérias na revista Domingo (do antigo Jornal do Brasil), e criou a capa sobre “mergulhadores na Baía de Guanabara a procura de barcos naufragados”. Na revista Veja Rio, criou 16 capas, muitas ilustrações de matérias, e ilustrou com charges as crônicas do crítico musical Sérgio Cabral, durante mais de cinco anos. Para o jornal O Globo, criou muitas capas para os cadernos “Vestibular”. 

• Diretor de arte editorial, fez os projetos gráficos de várias revistas corporativas: Hospedagem Brasil (para a Associação Brasileira da Indústria de Hotéis), Rumos Práticos (para o Conapra – Conselho Nacional de Praticagem), Paissandu Notícias (para o Paissandu Atlético Clube – RJ), Biólogos (para o CRBio-02 – Conselho Regional de Biologia), Revista da Casa de Eapaña (Órgão de divulgação da cultura espanhola no Rio de Janeiro), e Revista do Clube Naval (Para o Clube Naval do Rio de Janeiro).  

• Autor de três livros de cartuns: 
A fábrica e o povo (Massao Ohno – Ricardo Redisch Editores), com cartuns que ilustram um texto de Eça de Queirós.
Viagem de volta, (Repro–SP), com desenhos surrealistas de aviões inspirados nos Beatles, e poemas de Nei Leandro de Castro inspirados nos desenhos e nos Beatles.
Anedotas populares (Editora Taurus), com cartuns em forma de quadrinhos sobre anedotas contadas pelo povo.

• Contato com Sendino, através do e-mail:

sendino.claudio@gmail.com

quinta-feira, 14 de junho de 2018

• ARTIGO • Ação e reação


Por volta do ano de 1600, as primeiras leis da Física começaram a ser descobertas e comprovadas. Com a manipulação dessas leis, a humanidade conseguiu produzir, nesses últimos séculos, verdadeiras maravilhas, como os computadores, cada vez mais sofisticados, veículos espaciais de todo tipo, robôs que executam tarefas com precisão micrométrica, celulares que possuem mil funções –, que deixariam perplexo qualquer cientista da antiguidade. 
Tamanho progresso poderia ter elevado a um alto patamar a qualidade de vida de toda a humanidade. Mas os benefícios conquistados pelas populações do planeta nem de longe são compatíveis com esse grande desenvolvimento. Infelizmente, o resultado das invenções e descobertas atendem quase que somente à cobiça dos detentores do poder. Até mesmo o avanço da Medicina segue o caminho determinado pelos interesses da indústria farmacêutica. 
Essa grande incoerência esteve sempre presente no desenvolvimento do mundo e por isso os seres humanos vão ficando cada vez mais competitivos. Competem por tudo: por um cargo melhor no trabalho, por ascensão social, pela conquista dos bens de consumo, por riqueza e poder. 
A competição é considerada por alguns filósofos como a natural consequência da agressividade humana, herdada geneticamente do Homo Sapiens, que por sua vez a herdou de seu antecessor. Hoje em dia a competição é exaltada como uma qualidade positiva, na indústria, no comércio, e até na educação das crianças e jovens. É constantemente estimulada por pais e professores, que parecem não enxergar que ela seja a causadora de diversas formas de violência, de guerras entre indivíduos e entre nações. E que o seu estímulo prolongado tenha como consequência lógica, cedo ou tarde, o auto extermínio da espécie humana. 
Na competição permanente entre os indivíduos, as emoções e pensamentos comandam todas as ações. Essa competição, que se passa nos pensamentos, é tão intensa quanto as disputas na vida externa, porque uma é o reflexo da outra. E se considerarmos que pensamentos e emoções são transmissíveis entre cérebros, os pensamentos dirigidos a qualquer pessoa poderão gerar outros de retorno, numa troca invisível de forças mentais. 
Há razões para supor que realmente isso acontece. Segundo a moderna Física Quântica, “o micro mundo é não-local”. Significa que, quando duas partículas correlacionadas se separam, ainda que entre as duas exista uma imensa distância, qualquer experimento realizado numa delas repercute instantaneamente na outra.
Esse fenômeno permite admitir que, se um cérebro enviar energia de pensamento a outro cérebro, este reagirá, devolvendo uma energia igual e contrária, de forma semelhante ao enunciado da terceira lei de Newton (A toda ação corresponde uma reação contrária e de igual intensidade.), mas agora extensiva aos pensamentos e emoções.  
A troca de energia mental acontece a todo momento. Já dizia o velho e popular Profeta Gentileza, que “Gentileza gera gentileza”, parodiando o conhecido ditado “Violência gera violência.” 
Ambas as frases estão absolutamente corretas.
É fácil constatar, por exemplo, numa roda de conversa, que se alguém conta uma notícia de um crime, daí em diante o assunto tende a girar em torno de crimes. Os pensamentos do grupo, sintonizados nesse tema, levam cada um a procurar na memória outro crime para contar. É possível que depois de algum tempo, alguém perceba que o ambiente está “pesado” e proponha mudar de assunto. 
Por essa razão, a grande cobertura dada aos crimes e tragédias nos noticiários da mídia é fonte geradora de violência. Ainda mais quando estendem as reportagens por dias ou semanas, explorando as cenas dramáticas e os sentimentos de revolta e ódio dos envolvidos nas tragédias. A imprensa é incapaz de reconhecer esse fato, alegando que apenas cumpre o seu dever de informar, porém as leis naturais não levam em conta as razões motivadas por meros interesses humanos. 
Notícias de assassinatos e outros crimes, que arrecadam altos índices de audiência, enchem o público de ódio e indignação, seja pela violência das imagens transmitidas, seja pela injustiça ou impunidade. E indignação nada mais é do que emoção e pensamento, gerando uma energia de igual teor, extremamente negativa, que contamina simultaneamente multidões de leitores ou telespectadores.  
Algumas pessoas são mais receptivas, outras menos. Umas são verdadeiras “esponjas” emocionais, abatendo-se com qualquer pensamento negativo e reagindo, conforme o caso, com ódio e revolta. Outras, protegem-se com o escudo da indiferença, que lhes torna quase imunes aos ataques emocionais externos.
Por outro lado, hoje em dia há dados médicos comprovados, suficientes para se afirmar que as emoções positivas de fraternidade e afeição potencializam a saúde, enquanto as emoções negativas de ódio, medo, revolta etc., tendem a comprometê-la. Pensamentos e emoções atuam diretamente em nosso organismo, podendo baixar a imunidade e provocar doenças, como também curá-las. Ativam ou inibem as glândulas que produzem substâncias nocivas ou benéficas para as células, em todos os órgãos do corpo.
Há também, de forma muito mais poderosa, o pensamento coletivo, que pode ser gerado somente por um grupo, ou mesmo por toda uma nação.
 A maior evidência desse pensamento coletivo está nos países já agredidos ou escravizados por outros, e que por isso cultivam o sentimento de vingança em todo o povo. Por vezes, séculos depois, com a política mundial completamente mudada, seus indivíduos conservam ainda o ódio enraizado nas mentes, cuja vibração os impele à prática de atos terroristas contra o antigo inimigo. Para justificar esses atos, buscam amparo até mesmo em suas crenças religiosas, totalmente deturpadas pelos sentimentos de revolta.
Conhecemos no mundo países nessa situação, e seus líderes, apesar de externarem um desejo de paz, por baixo do pano permitem e até estimulam a formação de grupos extremistas que põem em prática o desejo coletivo de vingança.
Apesar de entidades mediadoras, muitas vezes conseguirem evitar o confronto bélico, tais nações estão continuamente em guerra mental. Essa troca de energias negativas, nenhuma filosofia ou religião, jamais conseguiu evitar.
No entanto, todos vivem apregoando a paz.
Países conflitantes tentam alcançá-la por meio de acordos e tratados diplomáticos, e até fortalecendo seus arsenais bélicos, para assim, em igualdade de condições com os outros, poder dissuadi-los.
A paz conseguida por esses meios será sempre momentânea. A competição desenfreada e ininterrupta em que vivem, fará aparecer outros impasses, acirrando novamente os confrontos. Por isso, infelizmente não há exemplos de nações que cultivem a plena amizade, trocando pensamentos e emoções afetuosos e desejos de felicidade mútua.
Para que a paz seja verdadeiramente alcançada, é necessário que se leve em conta o real significado de “Amai-vos uns aos outros”, que certamente não é o de sair por aí amando afoitamente a todos. Significa sim, que os seres humanos precisam se conscientizar – não apenas em teoria –, que são parte da Natureza, e todos pertencem à mesma raça. Devem, portanto, pensar e agir coletivamente, concentrados não apenas no seu próprio bem-estar, mas no de toda a espécie. 
Isso nada mais é do que adotar um sistema de vida em colaboração, em vez da vida em competição, como sempre existiu. 
Tal estágio evolutivo ainda não foi atingido, sobretudo porque a grande maioria das pessoas desconhece que suas emoções e pensamentos emitem energia, como também a capta dos pensamentos dos outros, pois toda energia é regida pela lei natural de causa e efeito, ou de ação e reação. 
Enquanto os sentimentos e pensamentos competitivos e agressivos incentivam a violência e as guerras, os altruístas e fraternos, não só fazem bem a quem os têm e aos que estão próximos, como, emitidos coletivamente, são capazes de promover a tão sonhada paz.

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• HISTÓRIAS DAS COISAS • 29 • Serra Azul



CAFÉ DA MANHÃ

História 19
Serra Azul

(Continuação de O fim da era dos recordes)


A colherzinha de café interrompeu o descanso do facão Rebite Prata: “Seu Prata, aí fora tem um facão querendo falar com o senhor.” – E antes de ouvir a resposta, foi logo fornecendo os detalhes: “Ele é meio estranho... É muito franzino... Parece mais uma faca, mas se apresentou como sendo um facão! Ele é serrilhado e tem o cabo azul, como o da faquinha Azul, mas é bem menor do que ela! Sinceramente, seu Prata, eu nunca vi um facão assim... Mas ele disse que conhece o senhor, posso deixar entrar?” 
Imediatamente Facão Prata se lembrou que foi procurado por uma figura exatamente assim, na época em que esteve confinado na gaveta da churrasqueira. Tinha o tamanho de uma faquinha, mas se achava muito maior. Disse ter sido criado em meio às facas, como se fosse uma delas, mas sempre se considerou diferente. “Eu sou um facão serrilhado, é assim que me sinto.” Contou que onde morava eram todos muito tradicionais, não admitiam mudanças de gênero, e por isso era mal-visto na comunidade.
“Você é gay?” – Perguntou Prata, com naturalidade.
“Não gosto desses rótulos”, respondeu, “apenas sei que sou um facão e não uma faca, como todos pensam.”  
Facão Prata se recorda que ele almejava uma vaga para atuar no Torneio de Tirinhas. Apesar da aparência frágil, garantiu que seu tamanho não seria empecilho: estava certo de sua competência. Chegou a implorar, usando uma reverência exagerada: “Oh, grande mestre, consiga para mim uma vaga na sua equipe.” – E concluiu humildemente: “Eu lhe imploro!”
Prata lembrou-se nitidamente que naquele momento ficou sem saber o que responder. Não tinha como prometer nada, mas também não queria bater-lhe a porta. Se lhe desse um não, poderia estar cometendo uma injustiça. Quem sabe –, pensou –, estivesse ali um grande talento? Resolveu então ser bem franco: explicou que estava na condição de exilado, por isso nada poderia decidir, mas recomendou que procurasse a faquinha Azul, em seu nome, na gaveta dos talheres da cozinha. 
Dias mais tarde o facão Rebite Prata foi chamado de volta à atividade, em dupla com o Dourado. Após sua volta aos Torneios, muitas águas rolaram. Aconteceram fatos importantes e graves, inclusive duas mortes trágicas: a da querida faca Fininha, e logo em seguida a do seu grande amigo Dourado. Esse período foi tão tumultuado que o fez esquecer totalmente do facãozinho serrilhado de cabo azul a lhe implorar ajuda. 
Prata jamais poderia esperar que um dia ele aparecesse novamente. Até porque lhe havia recomendado que procurasse a faquinha Azul, o que ele nunca fez. Mas o fato é que ali estava a figura, defronte à sua casa, querendo lhe falar. Como no passado, Prata não atinava o que fazer, mas também não queria lhe bater a porta, cortar sua esperança. 
“Deixe o facãozinho entrar” – respondeu para a colherzinha.
Pouco depois deu-se de cara novamente com o delicado facãozinho serrilhado. Seu cabo azul reluziu de alegria ao vê-lo: “Olá, mestre Rebite Prata, como vai o senhor?” 
A partir daí, os dois conversaram muito. O facãozinho tornou a contar a sua história, o descrédito de sua família e da comunidade onde vivia, e reafirmou sua vontade obsecada de fazer parte da equipe do Torneio de Tirinhas
Prata foi obrigado a admitir que, além de perseverante, ele era também muito simpático. Acabou deixando-se cativar, crendo mesmo tratar-se de um talento em potencial. Prontificou-se a testá-lo, porém deixando claro que não falava em nome da empresa; a iniciativa seria em caráter pessoal, particular. Sugeriu que adotasse o nome artístico Serra Azul, e acertou a realização do primeiro teste no dia seguinte, numa arena vazia. O facãozinho ficou radiante. Em seguida voltou para a gaveta, onde o Prata lhe ofereceu um lugar para ficar, durante o período de testes.
No dia seguinte, saiu-se maravilhosamente bem no teste de corte do pão, por conta do seu serrilhado e também por mostrar-se afiadíssimo. Nota dez! No entanto, no corte do queijo foi uma decepção. A fragilidade de seu corpo se fez notória: vacilou, envergou a lâmina e arrancou pedaços irregulares, fragmentando o queijo, sem força suficiente para cortá-lo de cima a baixo. Tentou novamente, e outra vez se deu mal. 
Voltou então chorando para a gaveta, com uma tristeza sem fim, apesar de seu mestre Prata fazer de tudo para consolá-lo: “Calma, Serra Azul, não se desespere, você tem talento, você vai pegar o jeito...” – Mas nada adiantou.
Faquinha Azul, é claro, já sabia a respeito. O Prata lhe contara sobre os testes que pretendia fazer com o facãozinho, e ela não só concordou, como torcia para dar certo. Depois das perdas que tiveram, estavam os dois sozinhos no comando dos Torneios, e seria ótimo ter mais um companheiro na equipe. 
Mas ao assistir ao teste do Serra Azul, ela torceu o nariz: “Hum... Sei não... Está me parecendo que esse cara é muito raquítico para ter firmeza no queijo.” 
A sorte do Serra Azul foi que no dia seguinte, durante a apresentação no Torneio de Tirinhas, a própria faquinha Azul também vacilou. Fez quase a mesma coisa: entortou a lâmina, devido à resistência do queijo, arrancando um pedaço sem chegar ao final da fatia. Teve de usar toda a toda a sua técnica para acabar conseguindo, a duras penas, cortar uma segunda fatia mais ou menos certa. Mas a dificuldade foi enorme. Concluiu então que aquele queijo estava totalmente fora do padrão exigido. Significava que o teste do Serra Azul não poderia ser considerado válido. 
Essa notícia deixou Serra Azul novamente otimista e confiante. E como havia se saído muito bem no corte do pão, Rebite Prata resolveu fazer com ele um novo teste. Decidiu encurtar caminho e testá-lo, dessa vez para valer: na arena do Torneio, com público.
A imprensa anunciou a novidade com uma frase de suspense: “Um desconhecido chega amanhã ao Torneio de Tirinhas. Quem será ele?”  – A manchete despertou tanta curiosidade, que no dia seguinte o público lotou o estádio.
Chegou o momento da apresentação. O queijo agora era macio, dentro do padrão oficial. Mesmo assim, muito nervoso, Serra Azul iniciou vacilando novamente. Sua lâmina começou a entortar, mas aos poucos conseguiu alinhá-la e cortou a fatia até o fim, embora meio desnivelada. A segunda fatia saiu melhor, apesar de ainda irregular. Na última, pouco ou nada melhorou. Mas o importante é que conseguiu cobrir com elas toda a superfície do pão. Fez isso com bastante presteza, e ganhou aplausos. Em seguida, o Pote de Orégano cumpriu a sua função rotineira, e então iniciou-se a parte mais difícil, a etapa mais apreciada pelo público, onde o protagonista tem oportunidade de exibir toda a sua técnica: o corte das tirinhas. 
Serra Azul, a partir daí, deu um banho de eficiência. Era a primeira vez que um facão serrilhado atuava nessa função, e revelou-se perfeito. Quase não fragmentava as beiradas do pão e seu serrilhado mostrou-se muito eficaz no corte. Foi bastante aplaudido pelo público.
Apesar do número de tirinhas não ser, atualmente, o fator determinante do sucesso, ainda há no público muitos aficcionados dos antigos recordes. E esses o aplaudiram bastante pelo resultado conseguido, de 21 tirinhas. Na segunda parte do Torneio, na arena de consumo, as tirinhas que Serra Azul cortou ganharam a nota “Ótima!” Não é a melhor nota, mas ainda assim, por se tratar de um novato, provocou muita admiração e aplausos.
Foi um grande começo para o Serra Azul, que de tanta alegria chegou às lágrimas. Foi aprovado pelo público e muito abraçado por seu mestre e pela faquinha Azul. 
   Mas na saída, a Azul comentou bem baixinho com o Prata: ”Sei não... Um protagonista tem que ser completo, e ele é muito frágil para o corte de queijo... Sei não...”

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