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segunda-feira, 2 de maio de 2016

• HISTÓRIAS DAS COISAS – 10 • Altos e baixos

HISTÓRIAS DAS COISAS (objetos como  personagens), são publicadas mensalmente, desde agosto de 2015.
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 A SAGA DOS FACÕES
Capítulo IV
Altos e baixos
(Continuação de A morte do Pote de Orégano – março de 2016)

No grande evento Café da Manhã, após uma tensa reunião na Administração, firmou-se contrato para a reabertura do Torneio de Tirinhas Tradicional, interrompido desde a trágica morte do Pote de Orégano. Será protagonizado, nessa nova fase, pelos dois velhos ídolos do público: os facões Rebite Prata e o Rebite Dourado.
Em paralelo, continuarão os espetáculos do Torneio das Tirinhas Uno, que vêm progressivamente cativando o público. O Uno possui todos os ingredientes do sucesso: a técnica de corte é bem mais simples, e os queijos – branco e amarelo –, dão um especial colorido ao espetáculo. Além disso, os recentes queijos brancos, menos consistentes, derretem e se espalham pela bandeja, causando um verdadeiro frisson no público. A faca Fininha, estrela do evento, contribui para a alegria geral, com sua movimentação inusitada durante o preparo, errando e consertando, invertendo de repente as posições, ou gritando, nervosa, quando um pedaço de queijo se solta. Às vezes, depois de tudo pronto, ela resolve trocar as posições do queijo branco com o amarelo, provocando uma hilariante confusão. Em síntese, o Torneio Uno tem menos qualidade e mais atrativos visuais, razão pela qual vem conquistando os jovens e o povão.
Mas o Torneio de Tirinhas Tradicional está voltando à cena, depois de um bom tempo inativo. A volta da dupla famosa, Prata e Dourado, foi muito divulgada pela mídia. As TVs exibiram filmes antigos do facões em atuações marcantes, e de suas entrevistas no exílio, tentando reativar no público a antiga paixão, que parecia ter-se esvaído.
No espetáculo de reestreia, tanto o Rebite Prata quanto o Dourado conseguiram superar o compreensivo nervosismo inicial, e se apresentaram muito bem. Cada um cortou metade das tirinhas, marcando assim a abertura da temporada, mas nos próximos espetáculos eles iriam se revezar. Ambos foram bem aplaudidos, por um bom público, mas que ainda assim ficou abaixo dos espetáculos Tirinhas Uno. O grande sucesso previsto não foi alcançado.
A razão é que os facões Prata e Dourado, tantos anos juntos, tinham quase o mesmo estilo. Ora um, ora outro se destacava, mas faltava aquela empolgação que o público encontrou na Fininha, nos Torneios Uno. Por isso, no decorrer da temporada, o público foi reduzindo, e o espetáculo acabou sendo frequentado somente por pessoas mais velhas, saudosistas do sucesso apoteótico de outrora, e por artistas e intelectuais, de gosto apurado, capazes de apreciar o talento dos facões, nas sutis manobras de corte. O povão e a maioria dos jovens, continuou preferindo o outro torneio. Já se cogitava, inclusive, de transferir o local do espetáculo, do estádio para uma casa menor.
Mas tudo na vida tem seus altos e baixos.
Durante uma apresentação, ainda com pouco público, o Facão Prata obteve o recorde dessa fase, com 21 tirinhas (o recorde mundial era dele mesmo, no tempo de seu apogeu, com 24 tirinhas). Mas o Dourado, logo em seguida, igualou esse recorde de 21 tirinhas, e no dia seguinte o superou, com 22. Apenas dois dias depois, bateu seu próprio recorde, com 23 tirinhas! Muito perto do recorde mundial de todos os tempos!
A série de recordes foi um gancho para a imprensa dar destaque ao torneio, e o público começou a encher o estádio. Toda essa fase, que durou pouco mais de um mês, deu novo alento aos facões e também aos dirigentes, que criaram uma expectativa positiva de arrecadação, com aumento constante de público, inclusive dos jovens, sempre atrás de novas emoções. No Torneio Uno, Fininha começou a ver sua supremacia ameaçada.
A mídia, interessada sobretudo na audiência, convidou a dupla Prata e Dourado para uma entrevista num programa de grande público. A repórter provocou: “Prata, você acha que está preparado para superar o Dourado?” “Não penso em superar ninguém!”, ele respondeu. “Faço sempre o melhor que posso, e os recordes vão acontecendo naturalmente.” Mas a repórter continuou instigando: “Sobre o espetáculo Uno, o que você acha da Fininha?” E Prata saiu-se bem: “Acho a Fininha encantadora, mas ela tem o seu jeito e nós temos o nosso.” A repórter: “Você pretende chegar ao seu próprio recorde mundial, de 24 tirinhas?” “Quem sabe...”, respondeu Prata.  A entrevista, transmitida em rede nacional, despertou grande interesse do público.
No dia seguinte, o estádio lotou, como nos velhos tempos. Telões foram armados do lado de fora, o que não acontecia há anos. Naquela manhã, tudo indicava uma volta ao sucesso passado, e os patrocinadores brindaram, radiantes.
O espetáculo, com o público lotando o estádio, transcorreu como nem os mais otimistas conseguiriam prever. Prata foi brilhante, iniciando a primeira tirinha com um corte estreito e colocando as próximas três em seguida, na mesma coluna. Um lance muito difícil, por isso aplaudido de pé. Seguiu economizando espaço em cada tirinha que cortava, e quando terminou o público fez um silêncio absoluto, à espera da contagem final. Todos sabiam que seria alta, que chegaria pelo menos perto do recorde.
De repente os auto falantes soaram: “Igualado o recorde mundial! Vinte e quatro tirinhas!
O próprio Rebite Prata não acreditou. Olhou para trás e viu o amigo Dourado, polegar erguido, comemorando. Só então caiu na realidade: igualar seu grande recorde, depois de todos esses anos! E isso era real! Estava mesmo acontecendo!
A ovação do público o fez novamente acreditar no futuro, pelo menos naquele momento de glória. Os aplausos intermináveis estacionaram o tempo em sua mente. Foi só com o abraço apertado e sincero do amigo Dourado, que ele despertou para a realidade. Mas os aplausos continuavam, mesmo depois do abraço. Sentiu-se então vaidoso, consagrado.
Parecia que, enfim, o Torneio das Tirinhas havia recuperado o apogeu. Previa-se a partir daí que os espetáculos, alternados com o Torneio das Uno, manteriam as duas casas cheias, para alegria dos patrocinadores e diretores.

Mas a competição entre os dois torneios prometia ser também muito maior. E de consequências imprevisíveis...

sexta-feira, 1 de abril de 2016

• HISTÓRIAS DAS COISAS – 9 • A Preta e a Cinza


HISTÓRIAS DAS COISAS (objetos como  personagens), são publicadas mensalmente, desde agosto de 2015.
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• A Preta e a Cinza

Preta sempre teve consciência de sua beleza, de ser forte e resistente. Por isso não se surpreendeu ao ser preferida entre tantas outras, levada e colocada, com orgulho, num belo armário de sapatos.
Tinha por seu dono um grande afeto, quase o idolatrava, e ser correspondida era motivo para viver sempre orgulhosa. Sendo a única sandália no armário, era usada durante a maior parte do dia. No esplendor de sua juventude, nunca se sentia cansada, entregando-se de corpo e alma à missão de caminhar por onde seu dono quisesse ir. Só repousava tarde da noite, enquanto ele dormia, ou, muito raramente, nas ocasiões em que ele vestia aquelas calças compridas com sapatos, que ela odiava. Mas enquanto trajasse bermudas, como era mais comum, sentia-se uma princesa a enfeitar os pés de seu dono e a protegê-lo do contato com o chão. Uma grande missão, que estava certa de executar com muita competência.
Assim foram passando os dias e os meses.
Dedicava-se ao trabalho, sempre disposta a enfrentar todo tipo de chão, desde o limpo assoalho da casa, os ladrilhos, a grama do jardim, até as incógnitas calçadas das ruas, passando por cimento, asfalto e pedras, terra e lama, e por todo o tipo de detritos e dificuldades. Nessas ocasiões, sempre que chegava em casa era limpa por seu dono, lavada no tanque, e depois passava horas encostada na parede, no sol, até secar.
Não somente quando saía à rua é que Preta passava por esse trato, uma verdadeira penitência para ela. Também depois de a grama ser cortada, suas incursões pelo quintal terminavam com restos de mato grudados na sola, e a operação da lavagem no tanque era ainda mais demorada. Às vezes seu dono a esquecia no sol o dia inteiro e só à noite se lembrava de buscá-la. Isso a deixava triste, mas nunca a ponto de diminuir o amor que lhe dedicava.
Em oito meses de vida, Preta jamais notou que seu corpo estava, pouco a pouco, se desgastando. A idade chegara e ela ainda se sentia inteira, somente um pouco flácida, por isso provocando uma certa insegurança no caminhar de seu dono. Preta nada percebia, mantendo o mesmo ânimo de quando era jovem, sempre vaidosa, exibindo-se nas ruas com orgulho, sem se importar com os percalços do caminho...
Até que um dia, aconteceu um fato imprevisível e chocante, que mudou sua vida. Bem ao seu lado, no armário, foi colocada uma outra sandália. Toda cinza com fios pretos e um nome de grife, reluzente, nas tiras. A tal marca que ela cansava de ver na televisão, mas que nunca esperou encontrar pela frente, estava ali, de repente, diante dela.
“Quem é você?”, perguntou, surpresa e indignada.
“Sou a nova sandália”, respondeu a outra, com desdém. “Eu não sou como você, sou de grife. Eu é que pergunto o que você ainda faz aqui! Acho que você já era!”
Preta quase desmaiou. Durante a sua vida, o amor que dedicava a seu dono sempre foi correspondido. Sabia que era muito eficiente e também charmosa. Reparava nos elogios que lhe faziam através de seu dono: “Você fica bem com essa sandália preta!” E sempre foi prestigiada com o melhor lugar no armário de sapatos. Ver-se de repente abandonada, trocada por outra, não podia suportar. Por isso não conseguiu responder. Calada, ficou no seu canto e chorou muito a noite toda.
No dia seguinte, pela manhã, foi despertada pelo calor dos pés de seu dono. Radiante por ser escolhida – ela e não a outra –, caminhou, feliz, pela grama do jardim, em direção à mangueira de molhar plantas. Já estava acostumada com essa tarefa, sempre terminando encharcada, cheia de grama e terra grudada no corpo. Como esperava, no final foi lavada no tanque e deixada ao sol, para secar. Permaneceu o resto do dia ali e nada do seu dono chegar para levá-la ao armário. Que assim fosse, o importante é que não foi jogada no lixo, como chegou a temer.
Quando anoiteceu, ouviu passos se aproximando, e a cena que viveu foi humilhante. Nos pés do seu dono estava a Cinza, ostentando sua grife. Parou em frente e a olhou com desprezo, de cima a baixo. Em seguida, o dono a deixou no armário e seguiu com a Cinza para o passeio noturno.
Preta entendeu o recado. O dono escolhera a Cinza para as noites de lazer. A ela caberia, de agora em diante, somente os servicinhos sujos de molhar o jardim e outras tarefas caseiras... Pela primeira vez, Preta sentiu-se velha. Só então reparou que uma pequena rachadura começara a se formar no seu corpo. “O começo do fim”, pensou. A falha iria se alastrar, e em breve seria jogada no lixo. Foi uma noite de pesadelos. Viu-se transportada no caminhão do lixo... e esmagada, junto com porcarias de todo tipo... “Ah, meu Deus, prefiro ser queimada!”
Lá pela madrugada, acordou com a porta do armário sendo aberta, e a Cinza, esplendorosa, foi colocada ao seu lado.
“Não se preocupe, querida”, disse, naquele costumeiro tom de desdém – “Você vai ser aproveitada, não vai para o lixo, não. Eu fiz questão de ser usada só para sair, não quero me desgastar à toa... Os trabalhinhos caseiros continuam com você, querida.”
Preta sentiu um alívio misturado com muita indignação, ao ver seu dono se curvar assim às vontades de “uma novata, metida a chique”. Sabia que seu dono não era de seguir modismos, não era de ligar para essa coisa de grife. “Ele sempre gostou de mim assim como sou!”, pensava. Alguma coisa estranha acontecera...
O que aconteceu foi explicado pelo tênis Branco, na noite seguinte. Era bem raro o dono calçar tênis, eles geralmente saíam da toca só no inverno. Mas, nessa tarde, o dono resolveu usar o tênis Branco e, na volta, o deixou ao lado da Preta. Os dois se conheciam, apesar de quase nunca terem se falado.
Branco quis puxar assunto: “O que achou de sua nova companheira?”, perguntou, sem saber que tocara o dedo na ferida. Mas Preta compreendeu que não houve maldade, e respondeu com uma naturalidade forçada: “Ela é muito chique...”  ao que Branco emendou: “É mesmo, e foi presente de aniversário!”
Preta estremeceu. Lembrou-se que seu dono fizera aniversário na véspera do aparecimento da Cinza. “Então, não foi escolha dele!” – concluiu.
Essa revelação desculpava o seu dono, apenas em parte. Explicava o fato de a sandália ser de grife, mas não justificava a preferência do seu dono por ela. E essa preferência era cada vez mais evidente, pois o melhor lugar no armário passou a ser da Cinza.
Contudo, isso contribuiu para que Preta conseguisse se adaptar à nova situação, ignorando os olhares de superioridade da Cinza e conformando-se em andar somente pela casa e pelo jardim. Não tinha outro jeito, essa seria sua vida dali em diante.
Até que, numa tarde, o curso de sua vida mudou bruscamente. O sol foi ficando encoberto por nuvens negras que se aproximaram rapidamente. Ignorando a ameaça da natureza, o dono manteve sua caminhada noturna com a Cinza, e seguiram seu caminho habitual. Cerca de quarenta minutos após saírem, caíram os primeiros pingos. Estrondos e relâmpagos dominaram o céu, e em poucos minutos o aguaceiro desabou como uma imensa cachoeira.
Do seu canto, no armário, Preta ouvia os trovões e o barulho da chuva forte no telhado e no jardim, que já ameaçava se transformar numa piscina rasa.
A tempestade, muito forte, durou cerca de duas horas, depois foi abrandando, até que, lá por volta de uma e meia da madrugada, restava só uma chuvinha fina com um pouco de vento. Durante esse tempo, Preta não conseguiu pegar no sono, preocupada com seu dono e até mesmo com a Cinza. Diante da grave situação, ela esqueceu o esnobismo da outra.
Eram duas e meia da manhã, quando ouviu o barulho da chave abrindo a porta da rua. Chegaram, finalmente, em passos lentos, pelo corredor da sala. Preta enxergou, pela brecha da porta, seu dono entrando no banheiro, com as roupas encharcadas, descalço, carregando na mão a sandália. Passou lá algum tempo. Depois, enrolado numa toalha, entrou no quarto trazendo a Cinza na mão. Colocou-a ao seu lado e saiu.
Cinza estava irreconhecível. Mesmo tendo sido lavada no banheiro e enxugada com cuidado, estava impregnada de manchas escuras, e uma de suas tiras ameaçava soltar-se. Ela voltou-se para Preta e falou num tom que nunca havia falado. “Oh, Preta... Você não sabe o que eu passei... Foi Deus que me ajudou, eu quase morri...” Sua voz era trêmula, ainda cheia de medo.
“Fale,” disse Preta, “conte o que aconteceu, você vai se sentir melhor se contar.”
Pela primeira vez Cinza a tocou com carinho, agradecendo, e continuou: “A rua alagou, eu me vi no meio de um lamaçal que me puxava, me puxava, e acabou me afastando do nosso dono. Eu me separei em duas. Metade de mim ficou no meio de um monte de latas e de plásticos, e eu fui arrastada pela lama até perto de um bueiro de rua. Se caísse, morreria. Fiquei a mercê da correnteza, que me desviou para o canto da calçada, e ali fiquei. Quando a chuva passou e a água baixou, pude ver como estava a rua: tudo era lama, misturada com lixo, com garrafas e latas, com ratos mortos, com tudo...” As palavras foram embargadas pelas lágrimas. Cinza chorou muito, enquanto Preta a acariciava, com um carinho que jamais pensou que existisse. As duas se abraçaram, demoradamente.
Quando Cinza se refez e conseguiu falar, suas palavras pareciam vir de uma outra Cinza, que acabara de nascer. “Nosso dono apareceu, carregando na mão a minha outra parte, e só então vi que estava salva. Tive muita sorte! Senti que nasci de novo! E nessa hora, os valores mudaram para mim.
Vi como a nossa vida é fugaz. O quanto é sem valor esse nome gravado em mim, o quanto é banal a marca da televisão, como isso tudo é uma bobagem! Então eu me lembrei de você, Preta... me lembrei o quanto fui injusta com você esse tempo todo...
Se você puder me perdoar... Se você conseguir... eu queria muito ser sua amiga...” A forte emoção transformou-se novamente em lágrimas.
“Nunca é tarde para enxergar! Se você se arrependeu... você está perdoada, sim... e agora somos amigas!”, disse Preta, também chorando. 
Felizmente os danos causados não chegaram a afetar o corpo da Cinza, que depois de várias lavagens voltou a ficar em forma. Por incrível que pareça, talvez percebendo a energia de amor que passou a envolver o armário dos sapatos, o dono resolveu tratar igualmente as duas sandálias, ora usando uma, ora outra, para qualquer tarefa. 
Assim termina esta história, em plena paz.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

• HISTÓRIAS DAS COISAS – 7 • Rodinho Mignon


Onde os objetos são personagens. (Publicadas desde agosto de 2015.)



• EVENTOS PARALELOS

História 2
Rodinho Mignon

No grande espetáculo do Café da Manhã, além dos conhecidos Torneio das Tirinhas e Torneio das Tirinhas Uno, existem vários outros, uns mais, outros menos frequentados pelo público. O segundo mais conhecido é o Amassamento de Bananas, onde os garfos e colheres, antes renegados, são os protagonistas. Em seguida, na ordem de preferência, está a Lavagem da Louça, que na verdade é o mais antigo, com cerca de vinte anos.
Há também eventos secundários, menos importantes, como a Retirada da Bandeja do Forno, que tem como protagonistas a Pequena Toalha e o Pegador de Alumínio. Apesar de pouco frequentado é muito emocionante, devido ao grande perigo de se queimar, exigindo muita coragem e técnica apurada.
Merece também ser citada, ainda que não seja um evento público, a viagem aérea dos talheres que irão participar dos espetáculos. Colheres, facas e garfos saem juntos da gaveta e embarcam numa confortável aeronave, que os leva até as arenas de suas funções. Essa viagem é sempre prazerosa e útil, pois incentiva a amizade entre os Talheres Nobres e os Renegados, antigos inimigos, que passam a viagem inteira em conversas alegres e brincadeiras.
Outro evento secundário, mas igualmente interessante é a Limpeza da Pia. Esse evento encerra o espetáculo do Café da Manhã, e justamente dele é que vamos falar agora.
A Limpeza da Pia começa logo após terminada a Lavagem da Louça, quando a esponja é espremida no mármore da pia. O espetáculo tem como único protagonista o Rodo – ou Rodinho, como muitos chamam. A tarefa consiste em puxar para dentro da pia a água e pequenas migalhas de pão que sobraram dos espetáculos anteriores.
O nome Rodo, no masculino, é apenas por tradição. Atualmente, Rodinho é uma jovem, muito talentosa, que conseguiu seu lugar numa situação de emergência. Ela veio substituir às pressas o Rodo II, que foi expulso pela esposa do diretor de eventos, por mero capricho, sem motivo algum justificável.
O caso da expulsão do Rodo II foi muito estranho e reconhecidamente injusto. Ele havia sido contratado em substituição ao Rodo Pioneiro – o primeiro da clã –, que se aposentara por idade, falecendo logo em seguida. O Rodo Pioneiro foi o fundador do espetáculo Limpeza da Pia, tendo desenvolvido sozinho toda a técnica de atuação e também elaborado o seu regulamento.
Fazia parte de sua técnica dar seguidas “pancadinhas” no mármore, para se livrar da espuma, mantendo a borracha limpa, e por isso era odiado por um membro da diretoria que se opunha publicamente a esse procedimento. O tal diretor não achava necessário as “pancadinhas”, considerando esse gesto um exibicionismo vulgar. Mas a forte personalidade do Pioneiro jamais permitiu que se curvasse, e a técnica das “pancadinhas” existe até hoje.
Dizem que esse mesmo diretor, revoltado, obrigou o Pioneiro a se aposentar, mas a realidade é que ele tinha a idade avançada e estava bastante enfermo. Tanto que pouco depois faleceu repentinamente, de um enfarto fulminante. Dizem as más línguas, que para a alegria do diretor...
Contratou-se então um novo Rodo, batizado de Rodo II. Nas suas primeiras apresentações ele decepcionou. Devido ao seu tamanho avantajado era muito desajeitado, esbarrando sempre no porta-talheres, quase derrubando os copos, o que sempre causava mal-estar no público presente. Além disso, sua borracha era muito extensa e não vedava bem, por isso deixava falhas ao puxar a água. Enfim, tudo nele funcionava mal. A sua saída, desejada pelo público, era iminente para os dirigentes. O único que ainda o admirava era aquele diretor que odiava seu antecessor, pois Rodo II não costumava usar a técnica das “pancadinhas” do Pioneiro. 
Mas aconteceu com o Rodo II uma mudança radical e inesperada. Numa das apresentações, sua borracha desprendeu-se do corpo. Era para ter encerrado ali sua carreira, mas, para surpresa geral, ele não parou. Mesmo sem borracha, cumpriu a missão até o fim do espetáculo, e, por incrível que pareça, com ótimo desempenho, puxando a água com perfeição. Pela primeira vez Rodo II arrancou aplausos do público.
Então, era a borracha que o atrapalhava!
Daí em diante, ganhou senso de direção, não esbarrou mais nos copos, puxando a água sem deixar rastros, como nunca fizera antes, quando tinha borracha. O público, obviamente começou a se entusiasmar, e o evento se tornou cada vez mais frequentado. Todos queriam ver o “Sem Borracha”, como acabou sendo apelidado. Os dirigentes, felizes com a arrecadação crescente, o promoverem a Permanente, com poderes equivalentes ao falecido Rodo Pioneiro.
Porém, a esposa do diretor de eventos costumava sempre tomar suas decisões, atendendo somente a seus caprichos. Numa manhã, acordou pior do que sempre e decretou que nenhum rodo poderia atuar mais sem a borracha. Sabia muito bem que estava decretando o fim do Rodo II, mas assim mesmo “fincou pé” na sua decisão, por mais que todos lhe mostrassem o trabalho eficiente do Sem Borracha. Ignorando a todos, esbravejou: “Não quero aqui nada pela metade! Ou você coloca a borracha ou não pode mais atuar!!!” Foi dessa maneira estúpida que ela o demitiu e contratou no mesmo dia a Rodinho, uma principiante.
O diretor, com sérios problemas para resolver nos eventos principais, achou melhor não brigar com a esposa por causa de um evento secundário. Se ela queria que as coisas fossem assim... que fossem! Mas, pelo menos, em vez de jogar o Rodo II no lixo, como sua esposa determinou, ele facilitou, às escondidas, que ele se exilasse no armário do estúdio. E o Sem Borracha permanece lá até hoje.
A estreia da Rodinho, no dia seguinte, foi melhor do que o esperado. Rodinho era uma figurinha delicada, visivelmente vaidosa, exatamente o oposto de seu antecessor. O público logo a batizou de “Rodinho Mignon”. Vestia uma túnica branca bordada com um singelo galinho contornado de preto e crista vermelha. Uma gracinha, diziam todos. Quando começou a atuar, percebeu-se que sua borracha puxava a água com perfeição, por isso terminou muito aplaudida. Seu futuro era promissor.
Nas primeiras apresentações, Mignon parecia mais uma criança brincando com água, do que uma profissional atuando para o público. Mas aos poucos, dia após dia recebendo aplausos e elogios, acabou adquirindo segurança nos gestos, e substituiu a antiga técnica das “pancadinhas” por uma espécie de ”balanço”, onde todo o seu corpo batia de leve no mármore, em dois tempos, soando de forma agradável. E agradou realmente, e muito, tanto à plateia quanto à diretoria. O gesto criativo e exclusivo do “balanço” tornou-se a sua marca registrada.
Atualmente, durante os espetáculos, o público aguarda com ansiedade o momento do “balanço”, e a aplaude muito nessa parte do show.
Consagrada como uma competente profissional, Mignon soube conservar-se delicada e muito graciosa, durante e depois de cada espetáculo. Tem seu lugar assegurado entre os profissionais e artistas dos grandes torneios, e ajudou a transformar o curto espetáculo da Limpeza de Pia num evento mais conhecido e concorrido.