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sexta-feira, 1 de abril de 2016

• HISTÓRIAS DAS COISAS – 9 • A Preta e a Cinza


HISTÓRIAS DAS COISAS (objetos como  personagens), são publicadas mensalmente, desde agosto de 2015.
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• A Preta e a Cinza

Preta sempre teve consciência de sua beleza, de ser forte e resistente. Por isso não se surpreendeu ao ser preferida entre tantas outras, levada e colocada, com orgulho, num belo armário de sapatos.
Tinha por seu dono um grande afeto, quase o idolatrava, e ser correspondida era motivo para viver sempre orgulhosa. Sendo a única sandália no armário, era usada durante a maior parte do dia. No esplendor de sua juventude, nunca se sentia cansada, entregando-se de corpo e alma à missão de caminhar por onde seu dono quisesse ir. Só repousava tarde da noite, enquanto ele dormia, ou, muito raramente, nas ocasiões em que ele vestia aquelas calças compridas com sapatos, que ela odiava. Mas enquanto trajasse bermudas, como era mais comum, sentia-se uma princesa a enfeitar os pés de seu dono e a protegê-lo do contato com o chão. Uma grande missão, que estava certa de executar com muita competência.
Assim foram passando os dias e os meses.
Dedicava-se ao trabalho, sempre disposta a enfrentar todo tipo de chão, desde o limpo assoalho da casa, os ladrilhos, a grama do jardim, até as incógnitas calçadas das ruas, passando por cimento, asfalto e pedras, terra e lama, e por todo o tipo de detritos e dificuldades. Nessas ocasiões, sempre que chegava em casa era limpa por seu dono, lavada no tanque, e depois passava horas encostada na parede, no sol, até secar.
Não somente quando saía à rua é que Preta passava por esse trato, uma verdadeira penitência para ela. Também depois de a grama ser cortada, suas incursões pelo quintal terminavam com restos de mato grudados na sola, e a operação da lavagem no tanque era ainda mais demorada. Às vezes seu dono a esquecia no sol o dia inteiro e só à noite se lembrava de buscá-la. Isso a deixava triste, mas nunca a ponto de diminuir o amor que lhe dedicava.
Em oito meses de vida, Preta jamais notou que seu corpo estava, pouco a pouco, se desgastando. A idade chegara e ela ainda se sentia inteira, somente um pouco flácida, por isso provocando uma certa insegurança no caminhar de seu dono. Preta nada percebia, mantendo o mesmo ânimo de quando era jovem, sempre vaidosa, exibindo-se nas ruas com orgulho, sem se importar com os percalços do caminho...
Até que um dia, aconteceu um fato imprevisível e chocante, que mudou sua vida. Bem ao seu lado, no armário, foi colocada uma outra sandália. Toda cinza com fios pretos e um nome de grife, reluzente, nas tiras. A tal marca que ela cansava de ver na televisão, mas que nunca esperou encontrar pela frente, estava ali, de repente, diante dela.
“Quem é você?”, perguntou, surpresa e indignada.
“Sou a nova sandália”, respondeu a outra, com desdém. “Eu não sou como você, sou de grife. Eu é que pergunto o que você ainda faz aqui! Acho que você já era!”
Preta quase desmaiou. Durante a sua vida, o amor que dedicava a seu dono sempre foi correspondido. Sabia que era muito eficiente e também charmosa. Reparava nos elogios que lhe faziam através de seu dono: “Você fica bem com essa sandália preta!” E sempre foi prestigiada com o melhor lugar no armário de sapatos. Ver-se de repente abandonada, trocada por outra, não podia suportar. Por isso não conseguiu responder. Calada, ficou no seu canto e chorou muito a noite toda.
No dia seguinte, pela manhã, foi despertada pelo calor dos pés de seu dono. Radiante por ser escolhida – ela e não a outra –, caminhou, feliz, pela grama do jardim, em direção à mangueira de molhar plantas. Já estava acostumada com essa tarefa, sempre terminando encharcada, cheia de grama e terra grudada no corpo. Como esperava, no final foi lavada no tanque e deixada ao sol, para secar. Permaneceu o resto do dia ali e nada do seu dono chegar para levá-la ao armário. Que assim fosse, o importante é que não foi jogada no lixo, como chegou a temer.
Quando anoiteceu, ouviu passos se aproximando, e a cena que viveu foi humilhante. Nos pés do seu dono estava a Cinza, ostentando sua grife. Parou em frente e a olhou com desprezo, de cima a baixo. Em seguida, o dono a deixou no armário e seguiu com a Cinza para o passeio noturno.
Preta entendeu o recado. O dono escolhera a Cinza para as noites de lazer. A ela caberia, de agora em diante, somente os servicinhos sujos de molhar o jardim e outras tarefas caseiras... Pela primeira vez, Preta sentiu-se velha. Só então reparou que uma pequena rachadura começara a se formar no seu corpo. “O começo do fim”, pensou. A falha iria se alastrar, e em breve seria jogada no lixo. Foi uma noite de pesadelos. Viu-se transportada no caminhão do lixo... e esmagada, junto com porcarias de todo tipo... “Ah, meu Deus, prefiro ser queimada!”
Lá pela madrugada, acordou com a porta do armário sendo aberta, e a Cinza, esplendorosa, foi colocada ao seu lado.
“Não se preocupe, querida”, disse, naquele costumeiro tom de desdém – “Você vai ser aproveitada, não vai para o lixo, não. Eu fiz questão de ser usada só para sair, não quero me desgastar à toa... Os trabalhinhos caseiros continuam com você, querida.”
Preta sentiu um alívio misturado com muita indignação, ao ver seu dono se curvar assim às vontades de “uma novata, metida a chique”. Sabia que seu dono não era de seguir modismos, não era de ligar para essa coisa de grife. “Ele sempre gostou de mim assim como sou!”, pensava. Alguma coisa estranha acontecera...
O que aconteceu foi explicado pelo tênis Branco, na noite seguinte. Era bem raro o dono calçar tênis, eles geralmente saíam da toca só no inverno. Mas, nessa tarde, o dono resolveu usar o tênis Branco e, na volta, o deixou ao lado da Preta. Os dois se conheciam, apesar de quase nunca terem se falado.
Branco quis puxar assunto: “O que achou de sua nova companheira?”, perguntou, sem saber que tocara o dedo na ferida. Mas Preta compreendeu que não houve maldade, e respondeu com uma naturalidade forçada: “Ela é muito chique...”  ao que Branco emendou: “É mesmo, e foi presente de aniversário!”
Preta estremeceu. Lembrou-se que seu dono fizera aniversário na véspera do aparecimento da Cinza. “Então, não foi escolha dele!” – concluiu.
Essa revelação desculpava o seu dono, apenas em parte. Explicava o fato de a sandália ser de grife, mas não justificava a preferência do seu dono por ela. E essa preferência era cada vez mais evidente, pois o melhor lugar no armário passou a ser da Cinza.
Contudo, isso contribuiu para que Preta conseguisse se adaptar à nova situação, ignorando os olhares de superioridade da Cinza e conformando-se em andar somente pela casa e pelo jardim. Não tinha outro jeito, essa seria sua vida dali em diante.
Até que, numa tarde, o curso de sua vida mudou bruscamente. O sol foi ficando encoberto por nuvens negras que se aproximaram rapidamente. Ignorando a ameaça da natureza, o dono manteve sua caminhada noturna com a Cinza, e seguiram seu caminho habitual. Cerca de quarenta minutos após saírem, caíram os primeiros pingos. Estrondos e relâmpagos dominaram o céu, e em poucos minutos o aguaceiro desabou como uma imensa cachoeira.
Do seu canto, no armário, Preta ouvia os trovões e o barulho da chuva forte no telhado e no jardim, que já ameaçava se transformar numa piscina rasa.
A tempestade, muito forte, durou cerca de duas horas, depois foi abrandando, até que, lá por volta de uma e meia da madrugada, restava só uma chuvinha fina com um pouco de vento. Durante esse tempo, Preta não conseguiu pegar no sono, preocupada com seu dono e até mesmo com a Cinza. Diante da grave situação, ela esqueceu o esnobismo da outra.
Eram duas e meia da manhã, quando ouviu o barulho da chave abrindo a porta da rua. Chegaram, finalmente, em passos lentos, pelo corredor da sala. Preta enxergou, pela brecha da porta, seu dono entrando no banheiro, com as roupas encharcadas, descalço, carregando na mão a sandália. Passou lá algum tempo. Depois, enrolado numa toalha, entrou no quarto trazendo a Cinza na mão. Colocou-a ao seu lado e saiu.
Cinza estava irreconhecível. Mesmo tendo sido lavada no banheiro e enxugada com cuidado, estava impregnada de manchas escuras, e uma de suas tiras ameaçava soltar-se. Ela voltou-se para Preta e falou num tom que nunca havia falado. “Oh, Preta... Você não sabe o que eu passei... Foi Deus que me ajudou, eu quase morri...” Sua voz era trêmula, ainda cheia de medo.
“Fale,” disse Preta, “conte o que aconteceu, você vai se sentir melhor se contar.”
Pela primeira vez Cinza a tocou com carinho, agradecendo, e continuou: “A rua alagou, eu me vi no meio de um lamaçal que me puxava, me puxava, e acabou me afastando do nosso dono. Eu me separei em duas. Metade de mim ficou no meio de um monte de latas e de plásticos, e eu fui arrastada pela lama até perto de um bueiro de rua. Se caísse, morreria. Fiquei a mercê da correnteza, que me desviou para o canto da calçada, e ali fiquei. Quando a chuva passou e a água baixou, pude ver como estava a rua: tudo era lama, misturada com lixo, com garrafas e latas, com ratos mortos, com tudo...” As palavras foram embargadas pelas lágrimas. Cinza chorou muito, enquanto Preta a acariciava, com um carinho que jamais pensou que existisse. As duas se abraçaram, demoradamente.
Quando Cinza se refez e conseguiu falar, suas palavras pareciam vir de uma outra Cinza, que acabara de nascer. “Nosso dono apareceu, carregando na mão a minha outra parte, e só então vi que estava salva. Tive muita sorte! Senti que nasci de novo! E nessa hora, os valores mudaram para mim.
Vi como a nossa vida é fugaz. O quanto é sem valor esse nome gravado em mim, o quanto é banal a marca da televisão, como isso tudo é uma bobagem! Então eu me lembrei de você, Preta... me lembrei o quanto fui injusta com você esse tempo todo...
Se você puder me perdoar... Se você conseguir... eu queria muito ser sua amiga...” A forte emoção transformou-se novamente em lágrimas.
“Nunca é tarde para enxergar! Se você se arrependeu... você está perdoada, sim... e agora somos amigas!”, disse Preta, também chorando. 
Felizmente os danos causados não chegaram a afetar o corpo da Cinza, que depois de várias lavagens voltou a ficar em forma. Por incrível que pareça, talvez percebendo a energia de amor que passou a envolver o armário dos sapatos, o dono resolveu tratar igualmente as duas sandálias, ora usando uma, ora outra, para qualquer tarefa. 
Assim termina esta história, em plena paz.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

• HISTÓRIAS DAS COISAS – 7 • Rodinho Mignon


Onde os objetos são personagens. (Publicadas desde agosto de 2015.)



• EVENTOS PARALELOS

História 2
Rodinho Mignon

No grande espetáculo do Café da Manhã, além dos conhecidos Torneio das Tirinhas e Torneio das Tirinhas Uno, existem vários outros, uns mais, outros menos frequentados pelo público. O segundo mais conhecido é o Amassamento de Bananas, onde os garfos e colheres, antes renegados, são os protagonistas. Em seguida, na ordem de preferência, está a Lavagem da Louça, que na verdade é o mais antigo, com cerca de vinte anos.
Há também eventos secundários, menos importantes, como a Retirada da Bandeja do Forno, que tem como protagonistas a Pequena Toalha e o Pegador de Alumínio. Apesar de pouco frequentado é muito emocionante, devido ao grande perigo de se queimar, exigindo muita coragem e técnica apurada.
Merece também ser citada, ainda que não seja um evento público, a viagem aérea dos talheres que irão participar dos espetáculos. Colheres, facas e garfos saem juntos da gaveta e embarcam numa confortável aeronave, que os leva até as arenas de suas funções. Essa viagem é sempre prazerosa e útil, pois incentiva a amizade entre os Talheres Nobres e os Renegados, antigos inimigos, que passam a viagem inteira em conversas alegres e brincadeiras.
Outro evento secundário, mas igualmente interessante é a Limpeza da Pia. Esse evento encerra o espetáculo do Café da Manhã, e justamente dele é que vamos falar agora.
A Limpeza da Pia começa logo após terminada a Lavagem da Louça, quando a esponja é espremida no mármore da pia. O espetáculo tem como único protagonista o Rodo – ou Rodinho, como muitos chamam. A tarefa consiste em puxar para dentro da pia a água e pequenas migalhas de pão que sobraram dos espetáculos anteriores.
O nome Rodo, no masculino, é apenas por tradição. Atualmente, Rodinho é uma jovem, muito talentosa, que conseguiu seu lugar numa situação de emergência. Ela veio substituir às pressas o Rodo II, que foi expulso pela esposa do diretor de eventos, por mero capricho, sem motivo algum justificável.
O caso da expulsão do Rodo II foi muito estranho e reconhecidamente injusto. Ele havia sido contratado em substituição ao Rodo Pioneiro – o primeiro da clã –, que se aposentara por idade, falecendo logo em seguida. O Rodo Pioneiro foi o fundador do espetáculo Limpeza da Pia, tendo desenvolvido sozinho toda a técnica de atuação e também elaborado o seu regulamento.
Fazia parte de sua técnica dar seguidas “pancadinhas” no mármore, para se livrar da espuma, mantendo a borracha limpa, e por isso era odiado por um membro da diretoria que se opunha publicamente a esse procedimento. O tal diretor não achava necessário as “pancadinhas”, considerando esse gesto um exibicionismo vulgar. Mas a forte personalidade do Pioneiro jamais permitiu que se curvasse, e a técnica das “pancadinhas” existe até hoje.
Dizem que esse mesmo diretor, revoltado, obrigou o Pioneiro a se aposentar, mas a realidade é que ele tinha a idade avançada e estava bastante enfermo. Tanto que pouco depois faleceu repentinamente, de um enfarto fulminante. Dizem as más línguas, que para a alegria do diretor...
Contratou-se então um novo Rodo, batizado de Rodo II. Nas suas primeiras apresentações ele decepcionou. Devido ao seu tamanho avantajado era muito desajeitado, esbarrando sempre no porta-talheres, quase derrubando os copos, o que sempre causava mal-estar no público presente. Além disso, sua borracha era muito extensa e não vedava bem, por isso deixava falhas ao puxar a água. Enfim, tudo nele funcionava mal. A sua saída, desejada pelo público, era iminente para os dirigentes. O único que ainda o admirava era aquele diretor que odiava seu antecessor, pois Rodo II não costumava usar a técnica das “pancadinhas” do Pioneiro. 
Mas aconteceu com o Rodo II uma mudança radical e inesperada. Numa das apresentações, sua borracha desprendeu-se do corpo. Era para ter encerrado ali sua carreira, mas, para surpresa geral, ele não parou. Mesmo sem borracha, cumpriu a missão até o fim do espetáculo, e, por incrível que pareça, com ótimo desempenho, puxando a água com perfeição. Pela primeira vez Rodo II arrancou aplausos do público.
Então, era a borracha que o atrapalhava!
Daí em diante, ganhou senso de direção, não esbarrou mais nos copos, puxando a água sem deixar rastros, como nunca fizera antes, quando tinha borracha. O público, obviamente começou a se entusiasmar, e o evento se tornou cada vez mais frequentado. Todos queriam ver o “Sem Borracha”, como acabou sendo apelidado. Os dirigentes, felizes com a arrecadação crescente, o promoverem a Permanente, com poderes equivalentes ao falecido Rodo Pioneiro.
Porém, a esposa do diretor de eventos costumava sempre tomar suas decisões, atendendo somente a seus caprichos. Numa manhã, acordou pior do que sempre e decretou que nenhum rodo poderia atuar mais sem a borracha. Sabia muito bem que estava decretando o fim do Rodo II, mas assim mesmo “fincou pé” na sua decisão, por mais que todos lhe mostrassem o trabalho eficiente do Sem Borracha. Ignorando a todos, esbravejou: “Não quero aqui nada pela metade! Ou você coloca a borracha ou não pode mais atuar!!!” Foi dessa maneira estúpida que ela o demitiu e contratou no mesmo dia a Rodinho, uma principiante.
O diretor, com sérios problemas para resolver nos eventos principais, achou melhor não brigar com a esposa por causa de um evento secundário. Se ela queria que as coisas fossem assim... que fossem! Mas, pelo menos, em vez de jogar o Rodo II no lixo, como sua esposa determinou, ele facilitou, às escondidas, que ele se exilasse no armário do estúdio. E o Sem Borracha permanece lá até hoje.
A estreia da Rodinho, no dia seguinte, foi melhor do que o esperado. Rodinho era uma figurinha delicada, visivelmente vaidosa, exatamente o oposto de seu antecessor. O público logo a batizou de “Rodinho Mignon”. Vestia uma túnica branca bordada com um singelo galinho contornado de preto e crista vermelha. Uma gracinha, diziam todos. Quando começou a atuar, percebeu-se que sua borracha puxava a água com perfeição, por isso terminou muito aplaudida. Seu futuro era promissor.
Nas primeiras apresentações, Mignon parecia mais uma criança brincando com água, do que uma profissional atuando para o público. Mas aos poucos, dia após dia recebendo aplausos e elogios, acabou adquirindo segurança nos gestos, e substituiu a antiga técnica das “pancadinhas” por uma espécie de ”balanço”, onde todo o seu corpo batia de leve no mármore, em dois tempos, soando de forma agradável. E agradou realmente, e muito, tanto à plateia quanto à diretoria. O gesto criativo e exclusivo do “balanço” tornou-se a sua marca registrada.
Atualmente, durante os espetáculos, o público aguarda com ansiedade o momento do “balanço”, e a aplaude muito nessa parte do show.
Consagrada como uma competente profissional, Mignon soube conservar-se delicada e muito graciosa, durante e depois de cada espetáculo. Tem seu lugar assegurado entre os profissionais e artistas dos grandes torneios, e ajudou a transformar o curto espetáculo da Limpeza de Pia num evento mais conhecido e concorrido.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

• HISTÓRIAS DAS COISAS – 6 • A concorrente


HISTÓRIAS DAS COISAS (objetos como  personagens), são publicadas mensalmente, desde agosto de 2015.
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 GRANDES EVENTOS
História 4
A concorrente
(Continuação de Reviravolta no torneio – dezembro de 2015)

O Torneio das Tirinhas passou a ter apresentações intercaladas da faquinha Azul e do facão Rebite Prata, após a sua volta da distante gaveta na churrasqueira, onde estava exilado há anos, juntamente com seu inseparável amigo, Rebite Dourado.
Conforme estabelecido no contrato, a volta do Prata previa espetáculos sem datas regulares. Sua primeira apresentação foi de surpresa, com pouco público, mas que o aplaudiu de pé. Essa surpresa, maciçamente divulgada na mídia, iria angariar um público crescente, trazendo de volta o brilho e o sucesso de tempos atrás. Assim pensavam o diretor de eventos e os patrocinadores, agora que os infindáveis pedidos do grande público, nas redes sociais, foram atendidos.
O grande ídolo estava de volta, mas as apresentações seguintes foram, na maioria, da faquinha Azul, cada vez mais competente e criativa. O Prata, ainda desanimado, quase sempre se recusava a atuar. A faquinha chegava a implorar para que ele se apresentasse, em nome da amizade dos dois. Só assim ele acabava consentindo, porém atuando de forma apenas regular, sem brilho.
O aumento de público foi muito abaixo do esperado. Pressionado pelos patrocinadores por mais assiduidade e mais empenho nas apresentações, Rebite Prata reconheceu sua má fase e prometeu fazer o possível. Ligou para seu amigo Rebite Dourado, que ficara na churrasqueira, e fez um apelo dramático para que viesse socorrê-lo.
Amigos são para essas coisas... Dias depois, o Dourado chegava à gaveta da cozinha, recebido com muita alegria, inclusive pela faquinha Azul, que se tornara amiga de ambos.  Facão Dourado avisou logo que desejava preservar seu anonimato, e somente se apresentaria em caso extremo. Ainda assim, sua compania foi um grande incentivo, uma injeção de ânimo, tanto que logo na apresentação seguinte, Prata arrancou muitas palmas, com um desempenho primoroso, agradando ao público e principalmente aos empresários.
Seguiu-se uma rotina de boas apresentações, sempre intercaladas com as da faquinha Azul, que aprimorava sua técnica a olhos vistos. Esse processo não passava despercebido do público, que agora se dividia, muitos achando que ela superou seu mestre. Realmente, em vários espetáculos era mais aplaudida do que o Prata.
Podia-se dizer que o Torneio das Tirinhas havia recuperado grande parte da fama de outrora, mas era evidente que não chegou sequer a igualar o antigo sucesso. Isso foi sentido sobretudo nos bolsos dos empresários, mas nada restava fazer, pelo menos por enquanto...
Foi aí que a criatividade da faquinha Azul manifestou-se novamente. Ela propôs uma nova modalidade para o Torneio das Tirinhas, com tudo diferente. Batizou de “Torneio de Tirinhas Uno”, devido a não usar mais as duas fatias de pão Árabe e sim uma fatia apenas do pão com Quinoa, que começara a ter grande aceitação na residência. As tirinhas seriam em menor número e bem mais largas do que as tradicionais, com o queijo por cima, descoberto.
A direção do evento permitiu uma apresentação experimental das novas Tirinhas Uno. Quem sabe estivesse ali o sucesso que tanto desejavam...
E realmente a experiência prometeu sucesso. A reação do público convidado especialmente para o evento foi tão positiva, que muitos vislumbraram as Uno igualando ou até superando as tirinhas tradicionais. No entender dos dirigentes, as Tirinhas Uno tinham potencial para se tornar o “torneio do futuro”, e imediatamente efetivaram a nova modalidade.
Quem não gostou nada foram os dois facões, o Prata e o Dourado. Não conseguiam aceitar uma mudança tão radical. A amizade entre eles e a faquinha Azul foi estremecida, pois ela lhes pareceu interessada apenas na busca do sucesso imediato. Então, como acontece com os honestos e bem-intencionados, reuniram-se para uma conversa franca.
A faquinha jurou que nunca desejou levar vantagem nem descartou a participação dos dois facões. Disse que sempre previu a inclusão de ambos no novo projeto. Mas tanto o Prata quanto o Dourado deixaram claro que “jamais participariam” de um torneio daquela natureza, o que certamente criaria um grande problema.
Ao vê-los tão decididos, percebendo que poderia perder a amizade de seu mestre, a faquinha Azul não teve dúvidas: optou por se afastar também e permanecer ao lado deles. Indicou para a função a sua prima Fininha, nunca chamada antes por ser muito frágil, sem a firmeza necessária para o corte. Mas como o novo pão era muito macio e a tarefa de cortar bem mais simples, ela conseguiria atuar, sem problema. E assim chegaram a um acordo.
A direção aceitou a sugestão da faquinha Azul de contratar Fininha para atuar na nova modalidade, e tudo correu como previsto. A primeira apresentação oficial do novo Torneio Uno, teve Fininha como protagonista, e ela cumpriu com perfeição a tarefa de cortar as novas tiras e dispô-las na bandeja. Felizmente foi muito favorável a reação do público.
Agora, podia-se a contar com duas opções: de um lado, o Torneio Tradicional, mais frequente, onde continuaram revezando o facão Prata com a faquinha Azul; ora um, ora outro se destacava, sendo que, na quantidade de público, a faquinha superava quase sempre seu amigo. De outro, o Torneio Uno, que ia aos poucos ganhando espaço, com a Fininha dando conta muito bem de sua função. A concorrência entre os dois torneios era muito bem-vista pelos dirigentes, naturalmente.
Fininha tinha a personalidade muito diferente de sua prima. Por baixo de sua aparência tímida, era extremamente vaidosa, teimosa e prepotente. Vendo-se com grande destaque na mídia, revelou-se: começou a agir como uma grande estrela, exigindo um local especial na gaveta, separado dos outros talheres, o acréscimo de meia fatia de pão, e autoridade absoluta sobre todo o espetáculo. Até mesmo na hora de fazer as fotos para este artigo, Fininha agiu com estrelismo: gritando com o fotógrafo, mandava repetir as fotos do ângulo que se achava melhor, empurrava o pão mais para lá, mais para cá... O fotógrafo não aguentava mais tanta “frescura”...     
Essa atitude exacerbada, amplamente divulgada, acabou virando motivo de chacota entre o público. O pote de orégano, que atuava nos dois torneios, ria-se a valer da pose da Fininha. Ocultamente, é claro, porque se ela soubesse o expulsaria da equipe.
Mas, exatamente por essa situação, o Torneio Uno continuou fazendo muito sucesso. O público se deliciava em ver a Fininha, sempre muito nervosa e agitada, atuando em todas as etapas, reclamando de tudo, gritando com auxiliares, até a operação final da colocação das largas tiras na bandeja, quando fazia questão de não seguir nenhum critério, improvisando de forma diferente a cada dia. O público a aplaudia sempre, pois reconhecia que apesar de tudo, ela era habilidosa e eficiente.
Enquanto isso, o Torneio Tradicional seguia sem novidades. O Facão Prata, agora mais assíduo, repetia atuações competentes, alternadas com as também impecáveis e aplaudidas apresentações da faquinha Azul. Mas o público não aumentava. Sinal que faltava alguma coisa, algo que agitasse, que provocasse polêmica... Tudo acontecia muito certinho, era perfeito demais!
O que faltava aconteceu numa manhã, assim que o Facão Prata iniciou. Logo no primeiro corte, sentiu a condição perfeita do pão, quase sem rugas, e do queijo, de consistência ideal. Num relance, lembrou-se de seu último recorde, há tantos anos. De lá para cá, só conseguira 14, no máximo 15 tirinhas, sem motivação para forçar mais do que isso. Habituara-se com a normalidade. Era isso que o público reclamava!
Sentiu-se tomado pelo antigo entusiasmo e, sem pensar em mais nada, começou a estreitar e reduzir a inclinação do corte, para aumentar o número de tirinhas. Fez isso repetidamente, cada tirinha mais estreita que a outra. O público levantou-se e, calado, ficou atento a todos os movimentos. Finalmente, na última tirinha, uma diagonal perfeita, sem deixar poeira. A contagem foi de 19 tirinhas, um recorde da fase atual.
Numa explosão de aplausos, o facão Prata foi ovacionado. Há muito tempo não acontecia nada parecido. A faquinha, sempre amiga, correu a abraçá-lo.

Esse feito colocaria o Torneio da Tirinhas novamente em evidência como o grande evento das manhãs. Era o prenúncio de novos e bons tempos!