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quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

• HISTÓRIAS DAS COISAS – 7 • Rodinho Mignon


Onde os objetos são personagens. (Publicadas desde agosto de 2015.)



• EVENTOS PARALELOS

História 2
Rodinho Mignon

No grande espetáculo do Café da Manhã, além dos conhecidos Torneio das Tirinhas e Torneio das Tirinhas Uno, existem vários outros, uns mais, outros menos frequentados pelo público. O segundo mais conhecido é o Amassamento de Bananas, onde os garfos e colheres, antes renegados, são os protagonistas. Em seguida, na ordem de preferência, está a Lavagem da Louça, que na verdade é o mais antigo, com cerca de vinte anos.
Há também eventos secundários, menos importantes, como a Retirada da Bandeja do Forno, que tem como protagonistas a Pequena Toalha e o Pegador de Alumínio. Apesar de pouco frequentado é muito emocionante, devido ao grande perigo de se queimar, exigindo muita coragem e técnica apurada.
Merece também ser citada, ainda que não seja um evento público, a viagem aérea dos talheres que irão participar dos espetáculos. Colheres, facas e garfos saem juntos da gaveta e embarcam numa confortável aeronave, que os leva até as arenas de suas funções. Essa viagem é sempre prazerosa e útil, pois incentiva a amizade entre os Talheres Nobres e os Renegados, antigos inimigos, que passam a viagem inteira em conversas alegres e brincadeiras.
Outro evento secundário, mas igualmente interessante é a Limpeza da Pia. Esse evento encerra o espetáculo do Café da Manhã, e justamente dele é que vamos falar agora.
A Limpeza da Pia começa logo após terminada a Lavagem da Louça, quando a esponja é espremida no mármore da pia. O espetáculo tem como único protagonista o Rodo – ou Rodinho, como muitos chamam. A tarefa consiste em puxar para dentro da pia a água e pequenas migalhas de pão que sobraram dos espetáculos anteriores.
O nome Rodo, no masculino, é apenas por tradição. Atualmente, Rodinho é uma jovem, muito talentosa, que conseguiu seu lugar numa situação de emergência. Ela veio substituir às pressas o Rodo II, que foi expulso pela esposa do diretor de eventos, por mero capricho, sem motivo algum justificável.
O caso da expulsão do Rodo II foi muito estranho e reconhecidamente injusto. Ele havia sido contratado em substituição ao Rodo Pioneiro – o primeiro da clã –, que se aposentara por idade, falecendo logo em seguida. O Rodo Pioneiro foi o fundador do espetáculo Limpeza da Pia, tendo desenvolvido sozinho toda a técnica de atuação e também elaborado o seu regulamento.
Fazia parte de sua técnica dar seguidas “pancadinhas” no mármore, para se livrar da espuma, mantendo a borracha limpa, e por isso era odiado por um membro da diretoria que se opunha publicamente a esse procedimento. O tal diretor não achava necessário as “pancadinhas”, considerando esse gesto um exibicionismo vulgar. Mas a forte personalidade do Pioneiro jamais permitiu que se curvasse, e a técnica das “pancadinhas” existe até hoje.
Dizem que esse mesmo diretor, revoltado, obrigou o Pioneiro a se aposentar, mas a realidade é que ele tinha a idade avançada e estava bastante enfermo. Tanto que pouco depois faleceu repentinamente, de um enfarto fulminante. Dizem as más línguas, que para a alegria do diretor...
Contratou-se então um novo Rodo, batizado de Rodo II. Nas suas primeiras apresentações ele decepcionou. Devido ao seu tamanho avantajado era muito desajeitado, esbarrando sempre no porta-talheres, quase derrubando os copos, o que sempre causava mal-estar no público presente. Além disso, sua borracha era muito extensa e não vedava bem, por isso deixava falhas ao puxar a água. Enfim, tudo nele funcionava mal. A sua saída, desejada pelo público, era iminente para os dirigentes. O único que ainda o admirava era aquele diretor que odiava seu antecessor, pois Rodo II não costumava usar a técnica das “pancadinhas” do Pioneiro. 
Mas aconteceu com o Rodo II uma mudança radical e inesperada. Numa das apresentações, sua borracha desprendeu-se do corpo. Era para ter encerrado ali sua carreira, mas, para surpresa geral, ele não parou. Mesmo sem borracha, cumpriu a missão até o fim do espetáculo, e, por incrível que pareça, com ótimo desempenho, puxando a água com perfeição. Pela primeira vez Rodo II arrancou aplausos do público.
Então, era a borracha que o atrapalhava!
Daí em diante, ganhou senso de direção, não esbarrou mais nos copos, puxando a água sem deixar rastros, como nunca fizera antes, quando tinha borracha. O público, obviamente começou a se entusiasmar, e o evento se tornou cada vez mais frequentado. Todos queriam ver o “Sem Borracha”, como acabou sendo apelidado. Os dirigentes, felizes com a arrecadação crescente, o promoverem a Permanente, com poderes equivalentes ao falecido Rodo Pioneiro.
Porém, a esposa do diretor de eventos costumava sempre tomar suas decisões, atendendo somente a seus caprichos. Numa manhã, acordou pior do que sempre e decretou que nenhum rodo poderia atuar mais sem a borracha. Sabia muito bem que estava decretando o fim do Rodo II, mas assim mesmo “fincou pé” na sua decisão, por mais que todos lhe mostrassem o trabalho eficiente do Sem Borracha. Ignorando a todos, esbravejou: “Não quero aqui nada pela metade! Ou você coloca a borracha ou não pode mais atuar!!!” Foi dessa maneira estúpida que ela o demitiu e contratou no mesmo dia a Rodinho, uma principiante.
O diretor, com sérios problemas para resolver nos eventos principais, achou melhor não brigar com a esposa por causa de um evento secundário. Se ela queria que as coisas fossem assim... que fossem! Mas, pelo menos, em vez de jogar o Rodo II no lixo, como sua esposa determinou, ele facilitou, às escondidas, que ele se exilasse no armário do estúdio. E o Sem Borracha permanece lá até hoje.
A estreia da Rodinho, no dia seguinte, foi melhor do que o esperado. Rodinho era uma figurinha delicada, visivelmente vaidosa, exatamente o oposto de seu antecessor. O público logo a batizou de “Rodinho Mignon”. Vestia uma túnica branca bordada com um singelo galinho contornado de preto e crista vermelha. Uma gracinha, diziam todos. Quando começou a atuar, percebeu-se que sua borracha puxava a água com perfeição, por isso terminou muito aplaudida. Seu futuro era promissor.
Nas primeiras apresentações, Mignon parecia mais uma criança brincando com água, do que uma profissional atuando para o público. Mas aos poucos, dia após dia recebendo aplausos e elogios, acabou adquirindo segurança nos gestos, e substituiu a antiga técnica das “pancadinhas” por uma espécie de ”balanço”, onde todo o seu corpo batia de leve no mármore, em dois tempos, soando de forma agradável. E agradou realmente, e muito, tanto à plateia quanto à diretoria. O gesto criativo e exclusivo do “balanço” tornou-se a sua marca registrada.
Atualmente, durante os espetáculos, o público aguarda com ansiedade o momento do “balanço”, e a aplaude muito nessa parte do show.
Consagrada como uma competente profissional, Mignon soube conservar-se delicada e muito graciosa, durante e depois de cada espetáculo. Tem seu lugar assegurado entre os profissionais e artistas dos grandes torneios, e ajudou a transformar o curto espetáculo da Limpeza de Pia num evento mais conhecido e concorrido.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

• HISTÓRIAS DAS COISAS – 6 • A concorrente


HISTÓRIAS DAS COISAS (objetos como  personagens), são publicadas mensalmente, desde agosto de 2015.
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 GRANDES EVENTOS
História 4
A concorrente
(Continuação de Reviravolta no torneio – dezembro de 2015)

O Torneio das Tirinhas passou a ter apresentações intercaladas da faquinha Azul e do facão Rebite Prata, após a sua volta da distante gaveta na churrasqueira, onde estava exilado há anos, juntamente com seu inseparável amigo, Rebite Dourado.
Conforme estabelecido no contrato, a volta do Prata previa espetáculos sem datas regulares. Sua primeira apresentação foi de surpresa, com pouco público, mas que o aplaudiu de pé. Essa surpresa, maciçamente divulgada na mídia, iria angariar um público crescente, trazendo de volta o brilho e o sucesso de tempos atrás. Assim pensavam o diretor de eventos e os patrocinadores, agora que os infindáveis pedidos do grande público, nas redes sociais, foram atendidos.
O grande ídolo estava de volta, mas as apresentações seguintes foram, na maioria, da faquinha Azul, cada vez mais competente e criativa. O Prata, ainda desanimado, quase sempre se recusava a atuar. A faquinha chegava a implorar para que ele se apresentasse, em nome da amizade dos dois. Só assim ele acabava consentindo, porém atuando de forma apenas regular, sem brilho.
O aumento de público foi muito abaixo do esperado. Pressionado pelos patrocinadores por mais assiduidade e mais empenho nas apresentações, Rebite Prata reconheceu sua má fase e prometeu fazer o possível. Ligou para seu amigo Rebite Dourado, que ficara na churrasqueira, e fez um apelo dramático para que viesse socorrê-lo.
Amigos são para essas coisas... Dias depois, o Dourado chegava à gaveta da cozinha, recebido com muita alegria, inclusive pela faquinha Azul, que se tornara amiga de ambos.  Facão Dourado avisou logo que desejava preservar seu anonimato, e somente se apresentaria em caso extremo. Ainda assim, sua compania foi um grande incentivo, uma injeção de ânimo, tanto que logo na apresentação seguinte, Prata arrancou muitas palmas, com um desempenho primoroso, agradando ao público e principalmente aos empresários.
Seguiu-se uma rotina de boas apresentações, sempre intercaladas com as da faquinha Azul, que aprimorava sua técnica a olhos vistos. Esse processo não passava despercebido do público, que agora se dividia, muitos achando que ela superou seu mestre. Realmente, em vários espetáculos era mais aplaudida do que o Prata.
Podia-se dizer que o Torneio das Tirinhas havia recuperado grande parte da fama de outrora, mas era evidente que não chegou sequer a igualar o antigo sucesso. Isso foi sentido sobretudo nos bolsos dos empresários, mas nada restava fazer, pelo menos por enquanto...
Foi aí que a criatividade da faquinha Azul manifestou-se novamente. Ela propôs uma nova modalidade para o Torneio das Tirinhas, com tudo diferente. Batizou de “Torneio de Tirinhas Uno”, devido a não usar mais as duas fatias de pão Árabe e sim uma fatia apenas do pão com Quinoa, que começara a ter grande aceitação na residência. As tirinhas seriam em menor número e bem mais largas do que as tradicionais, com o queijo por cima, descoberto.
A direção do evento permitiu uma apresentação experimental das novas Tirinhas Uno. Quem sabe estivesse ali o sucesso que tanto desejavam...
E realmente a experiência prometeu sucesso. A reação do público convidado especialmente para o evento foi tão positiva, que muitos vislumbraram as Uno igualando ou até superando as tirinhas tradicionais. No entender dos dirigentes, as Tirinhas Uno tinham potencial para se tornar o “torneio do futuro”, e imediatamente efetivaram a nova modalidade.
Quem não gostou nada foram os dois facões, o Prata e o Dourado. Não conseguiam aceitar uma mudança tão radical. A amizade entre eles e a faquinha Azul foi estremecida, pois ela lhes pareceu interessada apenas na busca do sucesso imediato. Então, como acontece com os honestos e bem-intencionados, reuniram-se para uma conversa franca.
A faquinha jurou que nunca desejou levar vantagem nem descartou a participação dos dois facões. Disse que sempre previu a inclusão de ambos no novo projeto. Mas tanto o Prata quanto o Dourado deixaram claro que “jamais participariam” de um torneio daquela natureza, o que certamente criaria um grande problema.
Ao vê-los tão decididos, percebendo que poderia perder a amizade de seu mestre, a faquinha Azul não teve dúvidas: optou por se afastar também e permanecer ao lado deles. Indicou para a função a sua prima Fininha, nunca chamada antes por ser muito frágil, sem a firmeza necessária para o corte. Mas como o novo pão era muito macio e a tarefa de cortar bem mais simples, ela conseguiria atuar, sem problema. E assim chegaram a um acordo.
A direção aceitou a sugestão da faquinha Azul de contratar Fininha para atuar na nova modalidade, e tudo correu como previsto. A primeira apresentação oficial do novo Torneio Uno, teve Fininha como protagonista, e ela cumpriu com perfeição a tarefa de cortar as novas tiras e dispô-las na bandeja. Felizmente foi muito favorável a reação do público.
Agora, podia-se a contar com duas opções: de um lado, o Torneio Tradicional, mais frequente, onde continuaram revezando o facão Prata com a faquinha Azul; ora um, ora outro se destacava, sendo que, na quantidade de público, a faquinha superava quase sempre seu amigo. De outro, o Torneio Uno, que ia aos poucos ganhando espaço, com a Fininha dando conta muito bem de sua função. A concorrência entre os dois torneios era muito bem-vista pelos dirigentes, naturalmente.
Fininha tinha a personalidade muito diferente de sua prima. Por baixo de sua aparência tímida, era extremamente vaidosa, teimosa e prepotente. Vendo-se com grande destaque na mídia, revelou-se: começou a agir como uma grande estrela, exigindo um local especial na gaveta, separado dos outros talheres, o acréscimo de meia fatia de pão, e autoridade absoluta sobre todo o espetáculo. Até mesmo na hora de fazer as fotos para este artigo, Fininha agiu com estrelismo: gritando com o fotógrafo, mandava repetir as fotos do ângulo que se achava melhor, empurrava o pão mais para lá, mais para cá... O fotógrafo não aguentava mais tanta “frescura”...     
Essa atitude exacerbada, amplamente divulgada, acabou virando motivo de chacota entre o público. O pote de orégano, que atuava nos dois torneios, ria-se a valer da pose da Fininha. Ocultamente, é claro, porque se ela soubesse o expulsaria da equipe.
Mas, exatamente por essa situação, o Torneio Uno continuou fazendo muito sucesso. O público se deliciava em ver a Fininha, sempre muito nervosa e agitada, atuando em todas as etapas, reclamando de tudo, gritando com auxiliares, até a operação final da colocação das largas tiras na bandeja, quando fazia questão de não seguir nenhum critério, improvisando de forma diferente a cada dia. O público a aplaudia sempre, pois reconhecia que apesar de tudo, ela era habilidosa e eficiente.
Enquanto isso, o Torneio Tradicional seguia sem novidades. O Facão Prata, agora mais assíduo, repetia atuações competentes, alternadas com as também impecáveis e aplaudidas apresentações da faquinha Azul. Mas o público não aumentava. Sinal que faltava alguma coisa, algo que agitasse, que provocasse polêmica... Tudo acontecia muito certinho, era perfeito demais!
O que faltava aconteceu numa manhã, assim que o Facão Prata iniciou. Logo no primeiro corte, sentiu a condição perfeita do pão, quase sem rugas, e do queijo, de consistência ideal. Num relance, lembrou-se de seu último recorde, há tantos anos. De lá para cá, só conseguira 14, no máximo 15 tirinhas, sem motivação para forçar mais do que isso. Habituara-se com a normalidade. Era isso que o público reclamava!
Sentiu-se tomado pelo antigo entusiasmo e, sem pensar em mais nada, começou a estreitar e reduzir a inclinação do corte, para aumentar o número de tirinhas. Fez isso repetidamente, cada tirinha mais estreita que a outra. O público levantou-se e, calado, ficou atento a todos os movimentos. Finalmente, na última tirinha, uma diagonal perfeita, sem deixar poeira. A contagem foi de 19 tirinhas, um recorde da fase atual.
Numa explosão de aplausos, o facão Prata foi ovacionado. Há muito tempo não acontecia nada parecido. A faquinha, sempre amiga, correu a abraçá-lo.

Esse feito colocaria o Torneio da Tirinhas novamente em evidência como o grande evento das manhãs. Era o prenúncio de novos e bons tempos!

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

• HISTÓRIAS DAS COISAS – 5 • Rviravolta no Torneio




HISTÓRIAS DAS COISAS (objetos como  personagens), são publicadas mensalmente, desde agosto de 2015.
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 A SAGA DOS FACÕES
Capítulo II
Reviravolta no Torneio 
(Continuação de Novo recorde mundial – setembro de 2015)


       O grande Torneio de Tirinhas esteve a ponto de acabar. Em pleno apogeu, com o estádio sempre cheio e rendendo milhões, eis que os facões, tanto o Rebite Prata quanto o Dourado, ambos protagonistas principais do evento, foram repentinamente afastados, sem nenhuma explicação, condenados a viver na velha gaveta da churrasqueira, junto com os talheres de churrasco, adquiridos numa loja popular.
Em seu lugar, foi empossada a recente aquisição: uma faca de cabo plástico azul, que habitava justamente a gaveta da churrasqueira, para onde foram levados os facões. Muito menor que eles, sem nenhuma experiência de torneios, ainda assim foi contratada.
O acontecimento chocou a todos, e não faltaram especulações da imprensa. Dizem que tudo foi causado pela esposa do diretor de eventos, que ao ver a faquinha apaixonou-se por ela e a recomendou para o torneio, com o argumento de que sua beleza iria atrair mais público. Pressionou tanto o marido, que ele acabou cedendo ao seu capricho.
O fato é que, uma vez consumada a demissão dos facões, anunciou-se imediatamente a estreia da Faca Azul – como foi batizada –, para o próximo Torneio de Tirinhas.
Na manhã do evento, o movimento nas ruas era grande. O público lotou o estádio, não para ver seu ídolo, como antes fazia, mas sim para vaiar e debochar da estreante, pois todos tinham como certo o vexame que iria acontecer.
A expectativa era enorme, até que se iniciou espetáculo, com a chegada da tábua, do queijo e do tradicional pote de orégano, sempre presente e atuante. Após a cerimônia da separação das duas bandas do pão, a Faca Azul finalmente entrou em cena cortando o queijo e distribuindo as fatias sobre o pão. O público, atento, esperava só um pequeno deslize para começar uma grande vaia... Mas o deslize acabou não acontecendo. A Faca Azul surpreendeu. Saiu-se muito bem nessa primeira etapa. Depois, esperou o Pote de Orégano cumprir a sua tarefa, para iniciar a parte mais difícil: a de cortar as tirinhas.
Atrapalhou-se um pouco no início, mas acabou muito melhor do que o esperado. Não se perdeu em momento algum e terminou com um corte transversal para a esquerda, na última tira – considerado uma ousadia criativa. A contagem registrou 14 tiras, o que para uma estreante era um grande resultado. E sua criatividade no corte transversal foi marcante. Acabou, inclusive, arrancando algumas palmas do público, ainda que a contragosto de todos.
Daí em diante, pouco a pouco afrouxou a pressão contra ela, embora a lembrança dos facões Rebite Prata e Dourado, ídolos da multidão, estivesse ainda viva nas mentes do povo. Muitos choravam por eles, e colocavam mensagens em redes sociais pedindo a sua volta. Todo esse movimento acabou surtindo efeito, pois logo as TVs anunciaram um pronunciamento deles, ao vivo, diretamente de onde estavam – no armário da churrasqueira.
Nesse dia a audiência foi absoluta, mas a transmissão tinha tanta interferência estática, que praticamente só o áudio funcionava, tendo a emissora que exibir uma foto de arquivo dos dois facões. Porém somente Rebite Prata falou, o seu amigo não quis se manifestar.
Mesmo assim a entrevista foi comovente. Prata não mostrou-se magoado e até incentivou a nova protagonista do evento. Com a voz tranquila, disse ter assistido a estreia da Faca Azul pela TV e que via nela muito talento. Ofereceu sua experiência, caso a “faquinha” precisasse de algum conselho. A Azul, em contato direto, chorou ao ouvi-lo e aceitou prontamente a oferta, tratando-o de “grande mestre”. Aproveitou para esclarecer que não foi ideia sua o que aconteceu, que nunca desejou ocupar o lugar deles, deixando claro que a culpa toda foi mesmo da esposa do diretor.
Esse pequeno diálogo, transmitido nacionalmente por todas as TVs, repercutiu muito bem em favor da Faca Azul. Deu-lhe mais confiança, pois realmente era muito talentosa, e ela passou a fazer todas as tarefas cada vez melhor, no Torneio das Tirinhas. Sua habilidade era evidente, e não parava de receber elogios do seu “mestre’, através do telefone instalado especialmente para ela.
Já então o público a aplaudia, mas estava longe de lotar a plateia. Muita gente ainda relutava assisti-la, talvez por solidariedade a seus antigos ídolos, injustamente afastados. Percebendo isso, a direção promoveu, com apoio das TVs, outra transmissão direta, dessa vez com a imagem garantida.
Rebite Prata apareceu nitidamente na tela, mas novamente sozinho. Como era seu jeito, evitou revelar qualquer mágoa sobre os motivos de seu afastamento. Preferiu gastar o seu tempo incentivando a “faquinha” Azul, como a chamava carinhosamente, afirmando sua certeza de que ela saberia superar a dificuldade do seu tamanho com muita técnica, e se tornaria uma grande profissional, pois talento não lhe faltava.
No dia seguinte houve muito mais gente na plateia, mas ainda assim não lotou. A razão, sem dúvida, foi a lembrança saudosa dos facões, bem sabiam os organizadores do evento. Como também sabiam que isso os faria perder dinheiro. E muito.
Ocorreu então a única ideia possível para sanar a situação: chamar de volta, se não os dois facões, pelo menos o Rebite Prata. Essa ideia foi aprovada unanimemente na reunião convocada às pressas. Mas acertaram que tudo deveria ser feito em sigilo, sem cobertura da imprensa, para que a surpresa causasse um grande impacto no público.
Imediatamente contataram os facões e propuseram o retorno do Prata, com a condição de que ele jamais questionaria seu afastamento, pelo menos publicamente. Ao contrário do que esperavam, sua reação não foi de euforia. Pediu um tempo para pensar, alegando que já estava fora há muito tempo, que não sabia se iria ter a mesma disposição nem a mesma destreza. E principalmente, porque teria de se afastar de seu amigo, pois ele desejava viver em completo anonimato.
Os empresários deram o tempo necessário, mas voltaram a contatá-lo e a negociação finalmente chegou a um acordo. Ele voltaria, mas poderia escolher os dias para atuar, sem compromisso de continuidade. E seu companheiro Rebite Dourado ficava lá, mas com todas as regalias possíveis, podendo vir quando desejasse.
  O sigilo foi mantido, mas não totalmente. Vazou para um funcionário da empresa, que correu para contar a novidade à Faca Azul, pouco antes do espetáculo. A notícia a fez sair-se muito bem nesse dia. Cortou as fatias de queijo de modo perfeito e recebeu muitas palmas. Motivada pelo que estava por acontecer, terminou com 17 tirinhas, um antigo recorde mundial, que para ela representava muito. Destacou-se também no transporte e na colocação criativa das tirinhas na bandeja, seguindo um caminho inverso, esbanjando criatividade. Dessa vez, foi aplaudida demoradamente, quase ovacionada. O público finalmente reconhecia seu talento.
Sabedora da volta dos facões, depois de agradecer as palmas, ela fez uma declaração bombástica: “Tenho certeza de que Rebite Prata e Rebite Dourado estarão novamente aqui. Nesse dia eu passarei o bastão para eles, com muita honra!”
Aí então, recebeu uma grande ovação do público. Essa declaração repercutiu em toda a imprensa. Todos comentavam o fato, alguns achando que foi uma pista do que iria acontecer, enquanto outros interpretaram simplesmente como uma demonstração de amor. Todos, enfim, a partir daí a aceitaram definitivamente como uma profissional capaz e competente. Nascia ali uma nova estrela.
A partir desse dia o público aumentava a cada espetáculo, até se equiparar com o do tempo dos facões. Faca Azul descobrira uma nova maneira de atuar, diferente da convencional e adaptada ao seu tamanho. Consagrou-se, finalmente, em grande parte consequência dos conselhos e incentivos que recebeu pelo telefone, sistematicamente, do seu mestre. 
Poucos dias depois, durante sua apresentação, fez-se uma pausa para o autofalante anunciar que Rebite Prata estava de volta, e brevemente se apresentaria ao público. Euforia total. Gritos se confundiram com palmas em todo o estádio. Ninguém prestou mais atenção ao espetáculo, nem mesmo os participantes, e a faquinha, visivelmente comovida, terminou apressadamente sua apresentação. Correu para o camarim e chorou de alegria.
No espetáculo de retorno do Facão Prata, o estádio não comportou a quantidade de público, e uma multidão se formou do lado de fora, para assistir por telões.
Facão Prata estava nervoso como nunca estivera, em grande parte pela falta do apoio de seu amigo Dourado, que ficara na gaveta da churrasqueira. Sentiu-se inseguro, pois havia anos que não se exibia publicamente. E foi com esses pensamentos que entrou em cena, tremendo diante da gritaria e dos aplausos do público. Se pudesse, naquele momento desistiria e voltaria ao aconchego da sua gaveta. Vacilou ao iniciar seu primeiro corte, largo demais, sem a decisão e a presteza que sempre teve, e o pão resistiu, não cortou. Teve de repetir com toda a força que pôde, e por isso deslizou, espalhando resíduos, fazendo uma verdadeira lambança. 
Parecia inevitável o fracasso completo, mas foi aí que seu talento nato falou mais alto. Com a ponta, num gesto rápido e preciso, consertou o erro e arrumou a tirinha. Cortou novamente, agora mais concentrado, e conseguiu um belo corte. Foi aplaudido por esse lance. Seguiram-se as outras tiras, de modo competente, sem erros. Mas também sem o brilho de outrora.
Quando terminou, Facão Prata foi aplaudido demoradamente, mas estava consciente que sua performance foi muito aquém da expectativa. Mesmo assim, a faquinha Azul correu a abraçá-lo, emocionada. Era seu mestre querido e seu ídolo, nada importava a atuação que teve.
Essa demonstração de afeto o reconfortou muito naquele momento. Os dois acabaram se isolando de todos, absortos numa conversa que se prolongou mesmo depois que saíram do estádio. Contaram um ao outro suas façanhas, alegrias e também os dissabores que passaram na vida. A amizade que existia, solidificou-se nesse dia.

O problema agora é como iria ser dali em diante. Certamente muita coisa estava para acontecer...