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domingo, 10 de julho de 2016

• HISTÓRIAS DAS COISAS – 12 • A volta da faquinha Azul

HISTÓRIAS DAS COISAS (objetos como  personagens), são publicadas mensalmente, desde agosto de 2015.
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 GRANDES EVENTOS
História 7
A volta da faquinha Azul
(Continuação de Altos e baixos – maio de 2016)


O Torneio Tirinhas é sucesso total, depois da série de recordes, com os dois facões – Prata e Dourado – revivendo seus tempos de glória.
Nem parece que há pouco mais de seis meses, uma paralização das suas atividades, motivada pela morte do Pote de Orégano, levou o facão Prata a uma crise de depressão. Ele e seu amigo Dourado estiveram a ponto de se isolar, voltando a morar na distante gaveta da churrasqueira. Quem os dissuadiu dessa ideia desastrosa foi a faquinha Azul, que na época atuava no Torneio, em dias alternados com o Prata. Durante uma tensa reunião da diretoria, ela propôs reabrir o Torneio das Tirinhas com a volta da dupla Prata e Dourado, outrora muito famosa. Ela renunciaria a atuar, em benefício deles. Os dois facões relutaram, mas acabaram aceitando a proposta com a condição de que ela fizesse “apresentações especiais” quando convidada. O que, passados mais de seis meses, nunca aconteceu... 
Como o prometido convite não chegava, a faquinha Azul ia ficando cada vez mais isolada e triste, assistindo ao sucesso dos dois facões somente pela TV. Para sobreviver, ela acabou tendo que aceitar as tarefas menores da cozinha. Mas não podia se conformar em envelhecer daquela maneira. Sabia do talento, da habilidade e capacidade que possuía.
Um dia aconteceu um fato que transformaria sua vida. Faquinha Azul trabalhava na fritura de um bife, tarefa que aceitara na falta do que fazer, ao lado do Garfo de Espeto, um jovem recém-chegado, que iniciava suas atividades profissionais. “Eu sou seu fã”, comentou de repente o Garfo, com um derretido olhar de admiração. Surpresa e meio envergonhada de estar ali, numa atividade menor, sem público algum, ela perguntou: “Você já me viu antes?”
“Eu não perdia nenhum espetáculo seu! Quando não podia ir no estádio, assistia na TV! Eu acho você o máximo! Você tem muito mais estilo do que aquele facão...!”
Na situação em que se encontrava, sentir-se assim admirada foi um verdadeiro alento.   Em pouco tempo tornaram-se amigos e confidentes.
Garfo de Espeto a idolatrava. Queria saber de sua vida, queria saber de tudo o que fosse dela, ouvir tudo. Para a faquinha Azul, essa nova amizade caiu do céu. Tudo o que precisava era de um amigo assim, para desabafar a angústia que sentia. Contou a ele toda a sua vida, falou da grande admiração que sempre teve pelo facão Prata, da amizade entre os dois, contou que ele foi seu mestre, que a defendeu e incentivou no início de sua carreira, e que por isso deve a ele o seu sucesso. E quando o viu naquela situação horrível, tendo em suas mãos a possibilidade de salvá-lo, nem vacilou! Ficou feliz em poder retribuir, pelo menos um pouco do que recebera...
Contou depois que admira muito a amizade entre o Prata e o Dourado: o que um faz o outro apoia, sempre foi assim. Por isso, a atitude estranha do Dourado, não cumprindo a promessa que lhe fez e afastando-se, largando-a de lado... no seu entender foi compartilhada pelo Prata! Ambos sabem muito bem o mal que causaram, o quanto era importante para ela manter-se no torneio! Achava essa atitude, no mínimo, estranha e contraditória, pois eles sempre agiram com lealdade, sempre foram justos e honestos. “Uma coisa muito estranha mesmo!”, repetia. Por isso a decepção foi assim tão grande, difícil de suportar! Contudo, ela é otimista, garantiu que não irá se abater. Disse estar disposta a reagir, pois sabe o talento que tem, e ainda pode atuar como antes.
Em resumo, foi isso o que contou a faquinha Azul. Garfo de Espeto, sempre atento, ouviu, comovido, toda a história. E pensava “como a realidade é tão diferente daquilo que aparenta! Quem poderia imaginar que tudo isso ocorria nos Torneios das Tirinhas, por baixo do pano, escondido do público, oculto dos repórteres...”
Com essa revelação, a faquinha Azul, se tornou para ele mais próxima, mais real do que nunca. Ele sentiu-se mais que um amigo. Apaixonou-se por ela...
Enquanto isso, bem longe dali, nos escritórios da diretoria do Torneio Tirinhas, os dois facões mantinham uma conversa com o Diretor de Eventos sobre o convite de “participação especial” para o próximo espetáculo.
“Por favor não insistam”, dizia o diretor, “eu sei que vocês prometeram e sei o quanto prezam a amizade com a Azul. Isso é muito louvável, mas...”
O Prata interrompeu: “Então, se o senhor compreende, há de concordar! E além de tudo ela é ótima, nós todos sabemos disso!” E o Dourado completou: “Acho que só vai enriquecer o espetáculo! A faquinha Azul é muito querida do público! Por favor, permita- nos convidá-la...”
O diretor passou o lenço no rosto, ajeitou a gravata e continuou:
“É muito louvável mas muito arriscado. Isto aqui é um negócio para dar lucro, não é filantropia. Não podemos desperdiçar as oportunidades. Nós tivemos a sorte de acertar com a ideia da dupla. Deu certo. Vocês também atravessam uma boa fase, estão batendo recordes, e recordes atraem público! É o público que nos interessa, é o que nos mantém vivos! E não estou disposto a permitir que nada, exatamente nada, mude o rumo positivo em que estamos! Esta decisão é definitiva, e para o bem de nós todos, podem estar certos!”
Assim, mais uma vez a proposta dos facões foi recusada. Os dois saíram da reunião, novamente tristes por serem impedidos de convidar a faquinha Azul, sua amiga de muito tempo. Tanto o Prata quanto seu amigo Dourado se sentiam constrangidos de dizer isso a ela, mostrando-se incapazes de cumprir a promessa que lhe fizeram...
“Já sei!” disse de supetão o Prata. Vamos mandar a ela um convite para a plateia!”
Dourado percebeu o plano: “Você não está pensando em...”
“Exatamente!” – Emendou Prata – “É isso mesmo! Vai ser de surpresa!”
Dourado lhe deu um tapa nas costas: “Você é genial! Não sei como não pensei nisso antes!” E saíram satisfeitos em direção à gaveta.
Dias depois a faquinha Azul recebe pelo Correio um passe de entrada, junto com um bilhete assinado pelo Dourado, comunicando que haveria um lugar na plateia reservado para ela, no espetáculo do dia seguinte.
Achou aquilo muito estranho. Depois de tanto tempo, um convite assim... totalmente informal, num papel rabiscado, sem o timbre da empresa! O que estaria acontecendo?
Mesmo com essas dúvidas, nem vacilou, e no dia seguinte lá estava ela, no lugar reservado.
Começa o espetáculo. Os auxiliares colocam o pão e o dividem ao meio, entra em cena o novo Pote de Orégano, e finalmente o facão Prata. Antes dele iniciar o primeiro corte, vira-se para o público e diz: “Senhoras e senhores, tenho uma surpresa reservada. Para fazer esse espetáculo, vou chamar alguém da plateia. Alguém que todos conhecem... a faquinha Azul!”
Foi um choque. Azul estremece, fica por um momento atônita, mas levanta-se e caminha até o palco. No camarim da diretoria, todos estão atônitos. Mas, nessa altura, não podem fazer nada, é só torcer para dar certo. Se der errado, os dois facões estarão demitidos.
Poucas palmas a princípio, mas quando a faquinha Azul sobe ao palco, é ovacionada pelo público. Não há qualquer diálogo. Simplesmente Prata se afasta e a deixa sozinha, para iniciar o espetáculo.
A faquinha Azul jamais vivera um momento como esse. Um verdadeiro teste para seus nervos, para sua capacidade de controle emocional. Ela fecha os olhos, pede ajuda a Deus e inicia o corte da primeira tirinha.
As dificuldades são grandes: faz muito tempo que ela não atua, sente-se insegura e despreparada. O pão está rachado, quebradiço, e o queijo tem que ser muito dividido para forrar toda a superfície.
Um horror!
A faquinha azul vacila, está a ponto de desistir. De repente, lembra a sua primeira estreia. Não foi muito diferente. Naquela ocasião, era uma desconhecida, tinha o público inteiro contra, esperando qualquer deslize seu para vaiá-la, e no entanto se deu bem. Talvez a vida a coloque nessas situações para que ela cresça. Pensando assim, ganha forças para reagir e enfrentar a situação.
Os primeiros cortes foram decisivos. Agora ela ajeita os farelos que caíram, e corta rente, de forma precisa. Os aplausos que ouve a incentivam. Continua concentrada, cortando e consertando os defeitos do pão, empurrando as sobras do queijo, e mantendo sempre espaços mínimos entre as tirinhas. O final é bem tranquilo, pois as maiores dificuldades já haviam sido superadas.
Mas jamais poderia esperar o que virá a seguir.
A contagem final anuncia simplesmente... o recorde mundial de todos os tempos! 25 tirinhas!
Faquinha Azul não credita. Deve ser um engano! O recorde é do Prata, ela sempre achou que a marca de 24 era insuperável. Mas não houve engano. A voz do alto-falante confirma as 25 tirinhas!

Facão Prata corre ao seu encontro, para abraçá-la. Mas antecipa-se uma figura desconhecida: o Garfo de Espeto. Ele a abraça e beija demoradamente. Facão Prata estanca, surpreso, olhando os dois, sem entender nada. Quando se separaram, ele diz, muito sem jeito: “Parabéns, faquinha... você merecia. Você é fantástica.” Ela então o abraça com força, chorando ao dizer: “Obrigada, meu amigo, você não esqueceu de mim...”

segunda-feira, 2 de maio de 2016

• HISTÓRIAS DAS COISAS – 10 • Altos e baixos

HISTÓRIAS DAS COISAS (objetos como  personagens), são publicadas mensalmente, desde agosto de 2015.
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 A SAGA DOS FACÕES
Capítulo IV
Altos e baixos
(Continuação de A morte do Pote de Orégano – março de 2016)

No grande evento Café da Manhã, após uma tensa reunião na Administração, firmou-se contrato para a reabertura do Torneio de Tirinhas Tradicional, interrompido desde a trágica morte do Pote de Orégano. Será protagonizado, nessa nova fase, pelos dois velhos ídolos do público: os facões Rebite Prata e o Rebite Dourado.
Em paralelo, continuarão os espetáculos do Torneio das Tirinhas Uno, que vêm progressivamente cativando o público. O Uno possui todos os ingredientes do sucesso: a técnica de corte é bem mais simples, e os queijos – branco e amarelo –, dão um especial colorido ao espetáculo. Além disso, os recentes queijos brancos, menos consistentes, derretem e se espalham pela bandeja, causando um verdadeiro frisson no público. A faca Fininha, estrela do evento, contribui para a alegria geral, com sua movimentação inusitada durante o preparo, errando e consertando, invertendo de repente as posições, ou gritando, nervosa, quando um pedaço de queijo se solta. Às vezes, depois de tudo pronto, ela resolve trocar as posições do queijo branco com o amarelo, provocando uma hilariante confusão. Em síntese, o Torneio Uno tem menos qualidade e mais atrativos visuais, razão pela qual vem conquistando os jovens e o povão.
Mas o Torneio de Tirinhas Tradicional está voltando à cena, depois de um bom tempo inativo. A volta da dupla famosa, Prata e Dourado, foi muito divulgada pela mídia. As TVs exibiram filmes antigos do facões em atuações marcantes, e de suas entrevistas no exílio, tentando reativar no público a antiga paixão, que parecia ter-se esvaído.
No espetáculo de reestreia, tanto o Rebite Prata quanto o Dourado conseguiram superar o compreensivo nervosismo inicial, e se apresentaram muito bem. Cada um cortou metade das tirinhas, marcando assim a abertura da temporada, mas nos próximos espetáculos eles iriam se revezar. Ambos foram bem aplaudidos, por um bom público, mas que ainda assim ficou abaixo dos espetáculos Tirinhas Uno. O grande sucesso previsto não foi alcançado.
A razão é que os facões Prata e Dourado, tantos anos juntos, tinham quase o mesmo estilo. Ora um, ora outro se destacava, mas faltava aquela empolgação que o público encontrou na Fininha, nos Torneios Uno. Por isso, no decorrer da temporada, o público foi reduzindo, e o espetáculo acabou sendo frequentado somente por pessoas mais velhas, saudosistas do sucesso apoteótico de outrora, e por artistas e intelectuais, de gosto apurado, capazes de apreciar o talento dos facões, nas sutis manobras de corte. O povão e a maioria dos jovens, continuou preferindo o outro torneio. Já se cogitava, inclusive, de transferir o local do espetáculo, do estádio para uma casa menor.
Mas tudo na vida tem seus altos e baixos.
Durante uma apresentação, ainda com pouco público, o Facão Prata obteve o recorde dessa fase, com 21 tirinhas (o recorde mundial era dele mesmo, no tempo de seu apogeu, com 24 tirinhas). Mas o Dourado, logo em seguida, igualou esse recorde de 21 tirinhas, e no dia seguinte o superou, com 22. Apenas dois dias depois, bateu seu próprio recorde, com 23 tirinhas! Muito perto do recorde mundial de todos os tempos!
A série de recordes foi um gancho para a imprensa dar destaque ao torneio, e o público começou a encher o estádio. Toda essa fase, que durou pouco mais de um mês, deu novo alento aos facões e também aos dirigentes, que criaram uma expectativa positiva de arrecadação, com aumento constante de público, inclusive dos jovens, sempre atrás de novas emoções. No Torneio Uno, Fininha começou a ver sua supremacia ameaçada.
A mídia, interessada sobretudo na audiência, convidou a dupla Prata e Dourado para uma entrevista num programa de grande público. A repórter provocou: “Prata, você acha que está preparado para superar o Dourado?” “Não penso em superar ninguém!”, ele respondeu. “Faço sempre o melhor que posso, e os recordes vão acontecendo naturalmente.” Mas a repórter continuou instigando: “Sobre o espetáculo Uno, o que você acha da Fininha?” E Prata saiu-se bem: “Acho a Fininha encantadora, mas ela tem o seu jeito e nós temos o nosso.” A repórter: “Você pretende chegar ao seu próprio recorde mundial, de 24 tirinhas?” “Quem sabe...”, respondeu Prata.  A entrevista, transmitida em rede nacional, despertou grande interesse do público.
No dia seguinte, o estádio lotou, como nos velhos tempos. Telões foram armados do lado de fora, o que não acontecia há anos. Naquela manhã, tudo indicava uma volta ao sucesso passado, e os patrocinadores brindaram, radiantes.
O espetáculo, com o público lotando o estádio, transcorreu como nem os mais otimistas conseguiriam prever. Prata foi brilhante, iniciando a primeira tirinha com um corte estreito e colocando as próximas três em seguida, na mesma coluna. Um lance muito difícil, por isso aplaudido de pé. Seguiu economizando espaço em cada tirinha que cortava, e quando terminou o público fez um silêncio absoluto, à espera da contagem final. Todos sabiam que seria alta, que chegaria pelo menos perto do recorde.
De repente os auto falantes soaram: “Igualado o recorde mundial! Vinte e quatro tirinhas!
O próprio Rebite Prata não acreditou. Olhou para trás e viu o amigo Dourado, polegar erguido, comemorando. Só então caiu na realidade: igualar seu grande recorde, depois de todos esses anos! E isso era real! Estava mesmo acontecendo!
A ovação do público o fez novamente acreditar no futuro, pelo menos naquele momento de glória. Os aplausos intermináveis estacionaram o tempo em sua mente. Foi só com o abraço apertado e sincero do amigo Dourado, que ele despertou para a realidade. Mas os aplausos continuavam, mesmo depois do abraço. Sentiu-se então vaidoso, consagrado.
Parecia que, enfim, o Torneio das Tirinhas havia recuperado o apogeu. Previa-se a partir daí que os espetáculos, alternados com o Torneio das Uno, manteriam as duas casas cheias, para alegria dos patrocinadores e diretores.

Mas a competição entre os dois torneios prometia ser também muito maior. E de consequências imprevisíveis...

sexta-feira, 1 de abril de 2016

• HISTÓRIAS DAS COISAS – 9 • A Preta e a Cinza


HISTÓRIAS DAS COISAS (objetos como  personagens), são publicadas mensalmente, desde agosto de 2015.
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• A Preta e a Cinza

Preta sempre teve consciência de sua beleza, de ser forte e resistente. Por isso não se surpreendeu ao ser preferida entre tantas outras, levada e colocada, com orgulho, num belo armário de sapatos.
Tinha por seu dono um grande afeto, quase o idolatrava, e ser correspondida era motivo para viver sempre orgulhosa. Sendo a única sandália no armário, era usada durante a maior parte do dia. No esplendor de sua juventude, nunca se sentia cansada, entregando-se de corpo e alma à missão de caminhar por onde seu dono quisesse ir. Só repousava tarde da noite, enquanto ele dormia, ou, muito raramente, nas ocasiões em que ele vestia aquelas calças compridas com sapatos, que ela odiava. Mas enquanto trajasse bermudas, como era mais comum, sentia-se uma princesa a enfeitar os pés de seu dono e a protegê-lo do contato com o chão. Uma grande missão, que estava certa de executar com muita competência.
Assim foram passando os dias e os meses.
Dedicava-se ao trabalho, sempre disposta a enfrentar todo tipo de chão, desde o limpo assoalho da casa, os ladrilhos, a grama do jardim, até as incógnitas calçadas das ruas, passando por cimento, asfalto e pedras, terra e lama, e por todo o tipo de detritos e dificuldades. Nessas ocasiões, sempre que chegava em casa era limpa por seu dono, lavada no tanque, e depois passava horas encostada na parede, no sol, até secar.
Não somente quando saía à rua é que Preta passava por esse trato, uma verdadeira penitência para ela. Também depois de a grama ser cortada, suas incursões pelo quintal terminavam com restos de mato grudados na sola, e a operação da lavagem no tanque era ainda mais demorada. Às vezes seu dono a esquecia no sol o dia inteiro e só à noite se lembrava de buscá-la. Isso a deixava triste, mas nunca a ponto de diminuir o amor que lhe dedicava.
Em oito meses de vida, Preta jamais notou que seu corpo estava, pouco a pouco, se desgastando. A idade chegara e ela ainda se sentia inteira, somente um pouco flácida, por isso provocando uma certa insegurança no caminhar de seu dono. Preta nada percebia, mantendo o mesmo ânimo de quando era jovem, sempre vaidosa, exibindo-se nas ruas com orgulho, sem se importar com os percalços do caminho...
Até que um dia, aconteceu um fato imprevisível e chocante, que mudou sua vida. Bem ao seu lado, no armário, foi colocada uma outra sandália. Toda cinza com fios pretos e um nome de grife, reluzente, nas tiras. A tal marca que ela cansava de ver na televisão, mas que nunca esperou encontrar pela frente, estava ali, de repente, diante dela.
“Quem é você?”, perguntou, surpresa e indignada.
“Sou a nova sandália”, respondeu a outra, com desdém. “Eu não sou como você, sou de grife. Eu é que pergunto o que você ainda faz aqui! Acho que você já era!”
Preta quase desmaiou. Durante a sua vida, o amor que dedicava a seu dono sempre foi correspondido. Sabia que era muito eficiente e também charmosa. Reparava nos elogios que lhe faziam através de seu dono: “Você fica bem com essa sandália preta!” E sempre foi prestigiada com o melhor lugar no armário de sapatos. Ver-se de repente abandonada, trocada por outra, não podia suportar. Por isso não conseguiu responder. Calada, ficou no seu canto e chorou muito a noite toda.
No dia seguinte, pela manhã, foi despertada pelo calor dos pés de seu dono. Radiante por ser escolhida – ela e não a outra –, caminhou, feliz, pela grama do jardim, em direção à mangueira de molhar plantas. Já estava acostumada com essa tarefa, sempre terminando encharcada, cheia de grama e terra grudada no corpo. Como esperava, no final foi lavada no tanque e deixada ao sol, para secar. Permaneceu o resto do dia ali e nada do seu dono chegar para levá-la ao armário. Que assim fosse, o importante é que não foi jogada no lixo, como chegou a temer.
Quando anoiteceu, ouviu passos se aproximando, e a cena que viveu foi humilhante. Nos pés do seu dono estava a Cinza, ostentando sua grife. Parou em frente e a olhou com desprezo, de cima a baixo. Em seguida, o dono a deixou no armário e seguiu com a Cinza para o passeio noturno.
Preta entendeu o recado. O dono escolhera a Cinza para as noites de lazer. A ela caberia, de agora em diante, somente os servicinhos sujos de molhar o jardim e outras tarefas caseiras... Pela primeira vez, Preta sentiu-se velha. Só então reparou que uma pequena rachadura começara a se formar no seu corpo. “O começo do fim”, pensou. A falha iria se alastrar, e em breve seria jogada no lixo. Foi uma noite de pesadelos. Viu-se transportada no caminhão do lixo... e esmagada, junto com porcarias de todo tipo... “Ah, meu Deus, prefiro ser queimada!”
Lá pela madrugada, acordou com a porta do armário sendo aberta, e a Cinza, esplendorosa, foi colocada ao seu lado.
“Não se preocupe, querida”, disse, naquele costumeiro tom de desdém – “Você vai ser aproveitada, não vai para o lixo, não. Eu fiz questão de ser usada só para sair, não quero me desgastar à toa... Os trabalhinhos caseiros continuam com você, querida.”
Preta sentiu um alívio misturado com muita indignação, ao ver seu dono se curvar assim às vontades de “uma novata, metida a chique”. Sabia que seu dono não era de seguir modismos, não era de ligar para essa coisa de grife. “Ele sempre gostou de mim assim como sou!”, pensava. Alguma coisa estranha acontecera...
O que aconteceu foi explicado pelo tênis Branco, na noite seguinte. Era bem raro o dono calçar tênis, eles geralmente saíam da toca só no inverno. Mas, nessa tarde, o dono resolveu usar o tênis Branco e, na volta, o deixou ao lado da Preta. Os dois se conheciam, apesar de quase nunca terem se falado.
Branco quis puxar assunto: “O que achou de sua nova companheira?”, perguntou, sem saber que tocara o dedo na ferida. Mas Preta compreendeu que não houve maldade, e respondeu com uma naturalidade forçada: “Ela é muito chique...”  ao que Branco emendou: “É mesmo, e foi presente de aniversário!”
Preta estremeceu. Lembrou-se que seu dono fizera aniversário na véspera do aparecimento da Cinza. “Então, não foi escolha dele!” – concluiu.
Essa revelação desculpava o seu dono, apenas em parte. Explicava o fato de a sandália ser de grife, mas não justificava a preferência do seu dono por ela. E essa preferência era cada vez mais evidente, pois o melhor lugar no armário passou a ser da Cinza.
Contudo, isso contribuiu para que Preta conseguisse se adaptar à nova situação, ignorando os olhares de superioridade da Cinza e conformando-se em andar somente pela casa e pelo jardim. Não tinha outro jeito, essa seria sua vida dali em diante.
Até que, numa tarde, o curso de sua vida mudou bruscamente. O sol foi ficando encoberto por nuvens negras que se aproximaram rapidamente. Ignorando a ameaça da natureza, o dono manteve sua caminhada noturna com a Cinza, e seguiram seu caminho habitual. Cerca de quarenta minutos após saírem, caíram os primeiros pingos. Estrondos e relâmpagos dominaram o céu, e em poucos minutos o aguaceiro desabou como uma imensa cachoeira.
Do seu canto, no armário, Preta ouvia os trovões e o barulho da chuva forte no telhado e no jardim, que já ameaçava se transformar numa piscina rasa.
A tempestade, muito forte, durou cerca de duas horas, depois foi abrandando, até que, lá por volta de uma e meia da madrugada, restava só uma chuvinha fina com um pouco de vento. Durante esse tempo, Preta não conseguiu pegar no sono, preocupada com seu dono e até mesmo com a Cinza. Diante da grave situação, ela esqueceu o esnobismo da outra.
Eram duas e meia da manhã, quando ouviu o barulho da chave abrindo a porta da rua. Chegaram, finalmente, em passos lentos, pelo corredor da sala. Preta enxergou, pela brecha da porta, seu dono entrando no banheiro, com as roupas encharcadas, descalço, carregando na mão a sandália. Passou lá algum tempo. Depois, enrolado numa toalha, entrou no quarto trazendo a Cinza na mão. Colocou-a ao seu lado e saiu.
Cinza estava irreconhecível. Mesmo tendo sido lavada no banheiro e enxugada com cuidado, estava impregnada de manchas escuras, e uma de suas tiras ameaçava soltar-se. Ela voltou-se para Preta e falou num tom que nunca havia falado. “Oh, Preta... Você não sabe o que eu passei... Foi Deus que me ajudou, eu quase morri...” Sua voz era trêmula, ainda cheia de medo.
“Fale,” disse Preta, “conte o que aconteceu, você vai se sentir melhor se contar.”
Pela primeira vez Cinza a tocou com carinho, agradecendo, e continuou: “A rua alagou, eu me vi no meio de um lamaçal que me puxava, me puxava, e acabou me afastando do nosso dono. Eu me separei em duas. Metade de mim ficou no meio de um monte de latas e de plásticos, e eu fui arrastada pela lama até perto de um bueiro de rua. Se caísse, morreria. Fiquei a mercê da correnteza, que me desviou para o canto da calçada, e ali fiquei. Quando a chuva passou e a água baixou, pude ver como estava a rua: tudo era lama, misturada com lixo, com garrafas e latas, com ratos mortos, com tudo...” As palavras foram embargadas pelas lágrimas. Cinza chorou muito, enquanto Preta a acariciava, com um carinho que jamais pensou que existisse. As duas se abraçaram, demoradamente.
Quando Cinza se refez e conseguiu falar, suas palavras pareciam vir de uma outra Cinza, que acabara de nascer. “Nosso dono apareceu, carregando na mão a minha outra parte, e só então vi que estava salva. Tive muita sorte! Senti que nasci de novo! E nessa hora, os valores mudaram para mim.
Vi como a nossa vida é fugaz. O quanto é sem valor esse nome gravado em mim, o quanto é banal a marca da televisão, como isso tudo é uma bobagem! Então eu me lembrei de você, Preta... me lembrei o quanto fui injusta com você esse tempo todo...
Se você puder me perdoar... Se você conseguir... eu queria muito ser sua amiga...” A forte emoção transformou-se novamente em lágrimas.
“Nunca é tarde para enxergar! Se você se arrependeu... você está perdoada, sim... e agora somos amigas!”, disse Preta, também chorando. 
Felizmente os danos causados não chegaram a afetar o corpo da Cinza, que depois de várias lavagens voltou a ficar em forma. Por incrível que pareça, talvez percebendo a energia de amor que passou a envolver o armário dos sapatos, o dono resolveu tratar igualmente as duas sandálias, ora usando uma, ora outra, para qualquer tarefa. 
Assim termina esta história, em plena paz.