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quinta-feira, 31 de agosto de 2017

• HISTÓRIAS DAS COISAS – 24 • Folhas de papel


Folhas de papel

Luz sente-se orgulhosa de ser uma folha de papel. Vive muito feliz em seu pacote, juntamente com suas companheiras, esbanjando otimismo e entusiasmo, verdadeiro antídoto para a tensão em que vive o grupo, na constante expectativa de serem chamadas a qualquer momento para uma tarefa que tanto pode torná-las felizes, como ser o fim de suas vidas. Mas o alto astral de Luz ilumina todas as folhas do pacote, elas reconhecem isso.
O ambiente onde vivem é um estúdio gráfico, com as paredes cheias de gravuras e desenhos, e o ideal de todas é ver-se, um dia, com um bonito visual estampado no corpo e fixada numa daquelas paredes. Luz é a folha 21 de um pacote com 50, mas grande parte delas já foram levadas, e a cada hora está mais próxima a sua vez. 
      O melhor passatempo das folhas de papel enquanto aguardam ser chamadas, é conversarem umas com as outras. A autoestima do grupo é muito baixa, acham-se insignificantes por serem simples folhas de papel. Somente Luz não pensa assim, e não se cansa de repetir: “Diante da imensidão do Universo, tudo e todos são igualmente insignificantes. Até mesmo os animais, até mesmo as montanhas!” E continua, com empolgação: “Até mesmo os humanos, com seus corpos imensos, cheios de órgãos, de músculos, e com a tal inteligência de que tanto se gabam, se comparados à grandeza do Universo, a sua importância é praticamente igual à nossa.” E arremata com um certo deboche: “Ou seja: nenhuma!”
Luz é mesmo uma presença importantíssima no pacote de papel, pois suas opiniões sobre a vida são muito consideradas, e o seu otimismo estimula a fraca autoestima do grupo.
No entanto, Luz não tem noção de como surgiu no mundo. Do seu passado só recorda que, antes de chegar naquele estúdio, morava numa grande loja, ao lado de muitos pacotes cheios de folhas de papel. Não apenas de folhas A4 brancas como ela, mas de muitas qualidades e cores diferentes, de texturas, espessuras e tamanhos variados. E além dos papeis e dos cartões, ela se via cercada de canetas, lápis, e mais um milhão de coisas vendidas na loja.
Luz considera que teve uma sorte enorme em chegar até ali. Sabe de muitos casos tristes, de folhas de papel que acabaram nas mãos de crianças malvadas ou de adultos sem cuidado, que as rabiscaram, amassaram e jogaram no lixo. Outras foram obrigadas a servir a pessoas do mal, que as usaram para escrever coisas terríveis. Outras ainda, levadas para cartórios, transformadas em documentos, depois furadas e presas em pastas, para o resto da vida. Houve também as que terminaram seus dias nas delegacias de polícia, com descrições de tragédias e de crimes digitadas em seus corpos!
Luz sabe muito bem que a vida de uma folha de papel é exposta a muita coisa ruim. Por isso dá tanto valor a ter sido levada para um estúdio gráfico. Sente-se feliz só em saber que está ali para servir à arte. “Ah, como vai ser bom quando me sentir riscada com um desenho como esses nas paredes...”, costuma sonhar, convicta de sua predestinação.
Ao contrário do otimismo de Luz, sua grande amiga Vitinha, vizinha de cima, é muito infeliz. Acha-se inferior às outras, vive atormentada com pensamentos negativos, e sofre muito por isso. Vitinha tem medo de tudo; treme só de pensar na possibilidade de ser rabiscada, rasgada ou usada para limpar sujeira. Mas o seu grande temor, o medo mais terrível, é o da impressora. Vitinha refere-se à impressora como uma “máquina de tortura”, e vive com pavor de um dia ter que passar por ela.
 Luz é sua maior amiga, com quem se sente à vontade para conversar, desabafar seus medos, sem receio de ser incompreendida e ridicularizada. Luz a ouve pacientemente, prestando atenção, e tenta sempre transmitir alguma esperança: “Minha amiga, fique certa de que nós duas temos muita sorte, somos abençoadas! Deus nos trouxe a esse lugar, onde se faz arte, e possui uma vibração muito positiva. Pode ficar certa de que nunca seremos usadas para o mal!”
Mas Luz não consegue afastar seus medos: “Não se iluda não, minha amiga”, reponde Vitinha, “aqui não é o paraíso que você fala, não! Eu já vi muita coisa ruim acontecer neste estúdio! Já vi muitas de nós serem rasgadas e jogadas no lixo! E vejo sempre aquela máquina monstruosa torturar e devorar folhas de papel iguais a nós!”
Luz não se perturba: “Que tortura, coisa nenhuma! A impressora não é nenhum monstro! É até gostoso passar por ela, pode acreditar!
Falar assim é ainda pior. Vitinha estremece, visivelmente perturbada: “Deus me livre! Ser pressionada por aqueles cilindros... com os medonhos jatos de tinta lançados no meu corpo! Não! Pelo amor de Deus!”
Luz continua tentando: “Os jatos de tinta não nos fazem mal algum! É a maneira de imprimir em nós uma estampa bonita!”
E Vitinha finalmente confessa: “Eu tenho claustrofobia! Só pensar em ser imprensada naqueles cilindros me deixa sem respirar! É horrível para mim!”
Luz compreende então que seu medo tem razões bem mais profundas, e para consolar a amiga, a acaricia, como a uma filha: “Oh, querida, procure não pensar mais nisso... Nós atraímos as situações quando pensamos muito nelas! Procure pensar somente que você vai ser chamada para um belo desenho... e ficará para sempre na parede, ganhando muitos olhares de admiração dos humanos, e respirando ar fresco, que vai deixar você feliz.”
Vitinha chega a chorar: “Obrigada, minha amiga... Vou tentar ver as coisas dessa maneira...”
Enquanto isso acontecia, as outras folhas de papel acima delas foram requisitadas, pois o trabalho no estúdio prossegue em plena atividade. Ouve-se o ruído da impressora sendo ligada, e o lápis é retirado do pote, sinal de que algum desenho está prestes a começar. Sempre que isso acontece, redobra a atenção das folhas, todas querendo ser levadas para a prancheta do desenhista ou para a impressora. Só Vitinha é que fica rezando para não ser a sua vez...
Várias folhas são levadas do pacote. Nesse momento a expectativa é grande. Da impressora começam a sair as primeiras folhas impressas com ilustrações e fotos de um catálogo. Na prancheta, uma folha em branco é riscada pela lapiseira. Riscos rápidos e vigorosos formam figuras, mas o esboço inicial fica por demais rabiscado. Então a folha é rasgada e jogada na lixeira.
Isso causa um choque em todas as outras, que, do interior do pacote, acompanhavam atentamente. Entre elas Vitinha, que muito nervosa, diz para a amiga Luz: “Você está vendo? Não há nenhuma segurança aqui! Jogaram a pobre da folha na lixeira!”
Luz ainda tenta amenizar: “Calma, filha, o destino não nos pertence!”
Mas Vitinha grita com medo: “E a próxima sou eu!“
“Tenha fé! Ninguém sabe o que vai acontecer!”
Luz mal termina a frase, Vitinha é levada, e justamente para onde lhe causa mais horror: a impressora. Muito apreensiva, Luz observa, mas a única coisa possível é mentalizar fortemente a amiga feliz, e desejar que tudo termine bem.
Nesse instante, Luz é carregada também para a impressora, mas consegue ainda ver a Vitinha, momentos antes de iniciar a descida para a impressão, gritando desesperada: “Socorro! Não me esprema! Não me esprema!” Luz procura mentalizar fortemente sua amiga passando, tranquila, pelos cilindros e jatos da tinta, enquanto ouve os gritos: “Não me esprema! Socoooooorrooooooo...” e os gritos cessam quando ela some no interior da impressora. Ficam apenas os ruídos surdos e pausados da impressão.
A seguir, alguns segundos de silêncio que pareceram horas... Finalmente Luz vê a amiga saindo lá embaixo, novamente aos gritos, mas dessa vez são gritos de entusiasmo: “Consegui! Consegui! Consegui passar!” E ente risos e mais risos de felicidade: “Meu medo acabou! Meu medo acabou! Estou livre!”
Agora é a vez de Luz ser colocada na bandeja e iniciar sua impressão. Como sempre otimista e feliz, desce pelo interior da impressora, passa tranquilamente pelos cilindros, sempre enviando mentalmente à sua amiga bons fluídos, desejando que ela seja colocada na parede, para decorar o estúdio. Enquanto pensa em sua amiga, os jatos de tinta vão pintando no seu corpo uma imagem.
Ao cair na bandeja final, Luz consegue ver que é uma bela imagem. No entanto, ela percebe que há uma pequena falha de impressão. Mas essa pequena falha basta para decretar seu fim. Sem nenhuma complacência, Luz é amassada e jogada no lixo.
Enquanto isso, tudo acontece como ela mentalizou: sua amiga Vitinha é colocada na parede do estúdio, sentindo-se duplamente feliz: por estar vivendo o ideal de todas as folhas, e sobretudo por ter superado o medo terrível da impressora.
Essa felicidade no entanto é efêmera. Dura somente até ela avistar a grande amiga, morta, na lata do lixo. Vitinha a princípio não acredita no que vê. Em seguida tem uma crise de choro, como se o mundo tivesse acabado, sabendo que nada pode fazer. Depois, tenta se comunicar com ela mentalmente, numa oração: “Minha amiga Luz. Você sempre soube me compreender, sempre me iluminou a vida. E hoje também, foi você que me salvou. Quando entrei na impressora e percebi que não tinha mais jeito, parei de gritar e me agarrei com suas palavras: “A impressora não é um monstro, é até gostoso passar por ela”. Eu repetia isso sem parar e sem pensar em mais nada. Fui então ficando calma. Vi que nada me apertava e o jato da tinta não me fazia mal! Suas palavras me salvaram! Obrigado, minha amiga! Faça sua viagem em paz!“
O tempo passa.
A vida de Vitinha após a morte de Luz, é bem tranquila. Na parede do estúdio, é sempre admirada pelos visitantes. Livrou-se dos pensamentos negativos que tanto a atormentavam. Não sente medo algum, muito menos da impressora. Somente a saudade da amiga a entristece.
De repente, Vitinha vê uma folha de papel saindo da impressora. Repara que tem o seu nome escrito, e logo abaixo a seguinte mensagem:
“Minha amiga. Não estou mais entre vocês, agora vivo em outra dimensão. Sou muito feliz por ter cumprido a missão de lhe mostrar que, para Deus, todas as coisas e seres têm uma importância relativa, e que os medos são apenas um produto de nossa imaginação. Quero que você também viva muito feliz.”

sendino.claudio@gmail.com


• ELES SÃO UNS GATOS! • Eu estou aqui!

EU ESTOU AQUI! – Esta é Sarinha.

terça-feira, 25 de julho de 2017

• ARTIGO • Não sou produto de sistema algum


Não sou produto de sistema algum

“É preciso tomar cuidado com os rótulos e as aparências, pois há muitas mulheres mais valentes que os homens, homens mais sensíveis do que crianças, crianças mais sofridas que idosos, idosos mais rápidos que jovens e jovens mais sábios que idosos. Há graduados que dão aula de ignorância e analfabetos ensinando a vida. E assim segue a estrada...”
Mario Quintana

O ser humano não é produto de um sistema socioeconômico, como muitos dizem. Fosse essa a realidade, a formação mental moldada pelo sistema vigente levaria os habitantes de cada país ou região a pensarem essencialmente da mesma maneira, terem todos as mesmas aspirações, os mesmos conceitos morais e o mesmo grau de evolução espiritual.
Em seu desenvolvimento ele sofre, sem dúvida, forte influência do sistema e do meio, mas tal influência não chega a ser determinante para a formação do seu caráter. Cada ser humano, ainda que passe a vida numa comunidade, ao lado de milhares de outros, sob as mesmas leis, frequentando escolas com o mesmo padrão de ensino, recebendo essencialmente as mesmas influências, possui gostos, maneiras de pensar e necessidades bem diferentes dos demais, e um grau de evolução espiritual próprio, exclusivo.
Desde muito jovens, todos apresentam tendências e índoles bem diferenciadas. Diversas vocações para as artes, para filosofia ou ciências exatas; Uns se mostram fraternos, humanistas e altruístas, sentindo prazer em colaborar com o próximo, enquanto outros do mesmo grupo, revelam-se egoístas, dominadores, querendo se apossar de tudo o que gostam.
Pergunta-se então: qual a característica do ser humano que deve ser considerada produto de um sistema socioeconômico? Os sistemas, sim, são produtos da concepção teórica  de indivíduos.
Em qualquer sociedade, seja qual for o regime vigente, desde a infância todos vão se acostumando com as regras impostas, achando tudo normal e rotineiro. À medida em que adquirem consciência de si mesmos e do mundo ao seu redor, começam a se manifestar as diferenças. Uns aceitam passivamente o statu quo e seguem sua vida da melhor maneira possível, sem questionamentos. Outros, ao contrário, contestam o que acham injusto no sistema. 
 Em todas as sociedades nascem pessoas com índoles diversas. Algumas tendem a ser honestas, outras não. Existem as que se mostram humanistas desde cedo, e as que crescem egoístas e dominadoras.
Os dominadores são indivíduos geneticamente induzidos a usar o semelhante para tirar proveito. Quando muito inteligentes, não importa se vivem num sistema com ou sem classes sociais estabelecidas, costumam encontrar um caminho, seja como políticos ou como empresários, para tornarem-se poderosos e ricos. Não raramente por métodos ilícitos ou criminosos.
Misturados com eles, estão os indivíduos de tendência humanista, que desde cedo demonstram isso. Com o DNA dotado de alto grau de espiritualismo, esses nunca veem diferenças sociais, ainda que elas existam no país, e acabam se engajando na construção de grandes obras humanitárias. Ajudar a humanidade é o objetivo maior e a vocação nata de tais pessoas.
Todos nascemos livres de qualquer sistema. O que o sistema faz, isso sim, é estimular as tendências dos indivíduos, segundo a orientação, planejada ou não, de cada país. E esse estímulo acontece através da educação.
Uma pessoa que traz determinada vocação em seu DNA, pode passar a vida frustrada e triste se não tiver oportunidade de progredir, se a sua capacidade em potencial não for estimulada pelos pais ou nas escolas. Ou seja, se o sistema não acenar com um futuro promissor nessa profissão.
Quanto mais o sistema souber recompensar as vocações positivas, mais portadores de tais qualidades se dedicarão a estudar e se aperfeiçoar, ajudando a desenvolver positivamente esse setor em seu país.
Em compensação, quando o sistema é orientado a estimular as vocações negativas, como os governos inibidores da justiça e permissivos à desonestidade, acaba generalizando a corrupção. Os indivíduos de índole desonesta sentem-se num campo fértil e vão aperfeiçoando cada vez mais seus métodos criminosos.
Por essa razão há povos mais dedicados ao desenvolvimento científico, à filosofia e às artes, alguns com senso de cidadania mais apurado, e outros dominados por corruptos e traficantes.
O ser humano, pois, apesar de sofrer forte influência do meio socioeconômico, não é seu produto. É antes, consequência de uma herança genética, cujo processo certamente vai muito além do conhecido pela Ciência atual.
O conhecimento da genética é bem recente, e ainda há muito o que descobrir. A Física Quântica já admite fenômenos antes considerados absurdos, como a influência mútua de células, não importando a distância entre elas. Quem sabe se o ser humano, ao nascer, herda características de suas próprias vidas passadas? Talvez no futuro a Ciência venha a considerar o fenômeno da reencarnação um processo natural da vida, embora de forma diferente da explicada pelas religiões. É uma hipótese que merece e está sendo investigada pela Ciência, e não faltam Indícios da sua existência.
Um deles, bastante contundente, é o de um menino norte-americano de nome James Leininger, que desde os dois anos tinha pesadelos com um avião em chamas, acordando aos gritos. Ele também sabia instintivamente o nome de todos os aviões da Segunda Guerra e reconhecia as figuras de cada um. Contava aos pais que morreu em Iwo Jima, apontando no mapa o lugar onde o avião Corsair que pilotava caiu, depois de decolar do navio Natoma. Dizia que foi derrubado por um tiro certeiro, de frente, e que se chamava James-3.
Todos os detalhes, inclusive o seu nome, foram confirmados com exatidão: piloto James M. Huston, o terceiro James do esquadrão, morto em Iwo Jima, atingido no motor por um avião japonês, após decolar do US Natoma Bay, pilotando um Corsair.
Existem inúmeros exemplos tão contundentes quanto esse, que despertam curiosidade no meio científico. Sabemos que na Ciência, postulados inaceitáveis numa época, tempos depois são explicados e aceitos. Será possível existir uma cadeia ainda desconhecida de DNA, que de alguma forma permaneça no éter, até que seja transmitida para um novo ser humano? Se isso de fato acontecer, esse novo ser nascerá com a mesma índole e todo o potencial mental do seu antecessor; terá recordações de fatos e sentimentos, como se lembrasse de uma vida passada, e estará capacitado a continuar de onde o outro parou. Certamente hipóteses bem mais embasadas estão sendo atualmente formuladas e investigadas. Cientistas não param de galgar novos degraus e a Ciência é uma escada sem fim...
Certo é que as vocações e a índole de cada indivíduo, a sensibilidade e capacidade de compreensão humana, são natas e individuais. É muito mais plausível que o ser humano seja produto de sua própria evolução, através de sucessivas vidas pelo reino animal, do que de um simples sistema político, inventado por ele mesmo.
sendino.claudio@gmail.com