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segunda-feira, 8 de agosto de 2016

• HISTÓRIAS DAS COISAS – 13 • Pelas lentes da vida

HISTÓRIAS DAS COISAS (objetos como  personagens), são publicadas mensalmente, desde agosto de 2015.
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Pelas lentes da vida

Maron enxergava de longe, Ren só via de perto. Quando um estava no rosto, o outro ficava no bolso. Amigos inseparáveis, viviam separados, pois somente tarde da noite conseguiam se falar. Quietos, na mesinha de cabeceira, finalmente podiam comentar as façanhas do dia.
Maron era mais seguro, mais senhor de si, e feliz com o seu trabalho. Adorava olhar as paisagens da orla, sempre reparava no contorno das montanhas, que ia diminuindo pouco a pouco, até se juntar com o mar da lagoa. Nos fins de tarde, maravilhava-se com o pôr do Sol, sempre diferente do anterior. Observava os raios de luz transpassando as folhas das árvores, fascinava-se com os pássaros... Achava linda a Natureza!
Gostava também de olhar as ruas, os automóveis, aquele monte de gente indo e vindo. Entretinha-se depois com a visão dos botões luminosos do elevador, meio desfocados, pois ele era especialista em ver ao longe. Gostava de ver a porta do elevador se abrir, e logo depois fechar-se novamente. Aguardava o habitual momento de entrar naquela sala grande, onde podia apreciar muitos rostos em volta da mesa comprida, todos falando muito. Era a costumeira e demorada reunião diária. Bem mais tarde, faria todo o percurso de volta, vendo novamente o elevador, as ruas, o volante e os controles do automóvel, esses de relance, enquanto, através do para-brisa, se assustava um pouco com os inúmeros veículos que passavam depressa à sua frente, até chegar em casa.   
Seu amigo Ren, ao contrário, vivia triste. Nas saídas à rua, permanecia quase o tempo todo no bolso, a não ser nos momentos de conferir uma conta, de assinar, ou de ler alguma revista ou jornal. Ren atuava mais dentro de casa, à noite, dedicando-se à leitura e principalmente à informática. Estava acostumado à visão de um designer, reparava nos detalhes dos seus desenhos, primeiramente rabiscados a lápis, depois transferidos para o computador, e ali acompanhava de perto os traços riscando a tela, encontrando-se ou cruzando com outros, até formar uma figura completa. Depois, escolhidas as cores, via cada uma ocupar determinado espaço, até o desenho ficar pronto.
Em outros momentos, seguia bem de perto as palavras de um texto, que às vezes parecia não ter mais fim. Lia páginas e páginas, sempre em close, voltando às vezes para corrigir uma letra digitada errado, colocar uma vírgula ou um sinal qualquer.
Mas apesar de todos esses trabalhos, Ren não era feliz. Faltava-lhe alguma coisa, um objetivo na vida, uma realização pessoal... Não sabia o quê, mas não lhe bastava viver sendo somente usado, e mais nada.
Enquanto ele trabalhava, à noite, Maron permanecia na mesinha de cabeceira do quarto, quieto, com suas hastes dobradas sob o corpo, pronto para qualquer eventualidade. No entanto, sentia-se tranquilo, feliz com seu trabalho de ver de longe. Não desejava mais nada, não tinha os mesmos questionamentos do amigo.
O tempo passava, Maron atuando de dia, pelas ruas e salas de empresas, e Ren mais à noite, nos detalhes de desenhos e textos, um completando o trabalho do outro. E os anos se encarregaram de formar uma sólida amizade entre eles.
Certa noite, Maron chegou com uma notícia preocupante: no dia seguinte iria à ótica, para substituir suas lentes. Essa troca de lentes já havia acontecido antes, por isso não deveria ser motivo de preocupação, ao contrário. Na ocasião, os dois foram juntos, e de lá voltaram felizes, ambos enxergando bem melhor. Mas agora havia uma diferença fundamental: Maron iria sozinho à ótica.  
“Por que não vamos juntos?”, perguntou Ren, pressentindo que alguma coisa ruim estava por vir.
“Bobagem”, comentou Maron, tranquilizando o amigo. “Vou só atualizar o grau da lente, como no ano passado! Na certa você irá depois!” 
“Não sei, Maron... Não sei porque, mas estou muito preocupado...”, repetia Ren. “Li um artigo sobre uma nova tecnologia... Uma lente que enxerga de perto e de longe... Uma coisa muito estranha!”
Mas o amigo continuou otimista: “Que nada, Ren, as lentes modernas são de melhor qualidade! Vamos conseguir ver melhor, só isso! Fique tranquilo!”
Ren finalmente sorriu: “É... Deve ser bobagem minha!”
Manhã seguinte, cedinho, lá foi Maron, olhando o intenso movimento do trânsito, em direção à ótica, numa rua do Centro. Ao passar pela vitrine da ótica, compadeceu-se de ver tantos semelhantes seus, ali deitados, aguardando uma oportunidade. Logo o levaram para o laboratório, e, como numa anestesia geral, tudo se apagou.
Quando acordou, viu um mundo estranho. Olhava as coisas bem de pertinho e todas estavam nítidas, como nunca tinha visto. Tão nítidas quanto as que via de longe! Que coisa estranha! Foi quando ouviu a voz do vendedor: “O senhor fez uma boa troca, as lentes multifocais são muito melhores!” Aí ele entendeu tudo: suas novas lentes eram daquela tecnologia estranha... Eram aquelas que o Ren tinha medo!
A cada coisa que focava, mais se surpreendia. E percebeu algo ainda mais estranho: ao olhar para distante, através de sua parte superior, tudo era normal, como sempre foi. Mas à medida em que fosse baixando o olhar, ia enxergando os detalhes, cada vez com mais nitidez, até se igualar à visão do seu amigo Ren. Uma coisa mágica, inacreditável!
Maron pensou imediatamente no amigo. Durante todo o percurso de volta, tentou arranjar argumentos que justificassem a sobrevivência dos dois. Mas cada vez era mais evidente que ele agora ficaria sozinho. O que seria do Ren, seria dispensado? Morreria?
Atormentado com tais pensamentos, chegou ao quarto de sua casa. Foi posto ao lado do o amigo, na mesinha de cabeceira, mas antes que pudessem falar qualquer coisa, Ren foi levado ao rosto, por uns breves segundos. Apenas um teste. Em seguida Ren voltou para a mesinha e ele retornou ao rosto. Assim, não tiveram tempo sequer de trocar uma palavra.
Maron voltou para a rua e ficou o resto do dia fora de casa. Estava tão aflito com o amigo, que nem se importou com a novidade de enxergar de perto. Só pensava no Ren, durante a passagem pelas ruas, pela subida do elevador, e durante a costumeira reunião na grande sala. Nenhum prazer sentiu ao enxergar com perfeição os detalhes, assinar documentos, ler colunas de jornais, tampouco reparou no pôr do Sol. Nada disso conseguiu afastar a preocupação com o seu amigo, que pela primeira vez ficara em casa. Retornou, como sempre, cansado, já no início da noite.
Diante do computador, pela primeira vez, ele – e não o Ren, examinou de perto as palavras dos textos e seguiu os traços de um desenho. Em vez de se alegrar com a nitidez de sua visão, mais se entristeceu, cheio de compaixão pelo amigo renegado.
Na hora de costume, foi deixado na mesinha de cabeceira, e felizmente ainda estava lá o seu amigo Ren. Mas estava visivelmente desolado. Assim que o viu chegar, disse em tom de brincadeira, disfarçando a profunda mágoa: “Eu já sei da verdade. Você agora é moderno, é multifocal! Não precisa mais de mim, você faz todas as funções. Nada mais me resta...”
“É verdade, minha lente é multifocal, sim, mas não penso em me afastar de você. Nunca!” – Respondeu Maron, seriamente.
“Não depende de sua vontade, meu amigo. É o progresso tecnológico, não podemos impedir! Acho que essa é a última vez que nos vemos.” – Retrucou Ren.
O que ele falou fazia sentido. Ren foi confinado numa gaveta, longe de seu amigo.
 Nos dias seguintes, somente Maron foi usado, de manhã à noite. Enxergava com perfeição, desde os detalhes até o horizonte distante. No entanto, essa nova vida não lhe trouxe felicidade. Deixou de se alegrar com a Natureza, não se importou mais em ver o por do Sol, fazia seu trabalho rotineiramente, apenas por obrigação.
Toda noite, ao voltar para o seu canto, esperava em vão encontrar o amigo. Ele não foi jogado fora, com certeza. Devia estar guardado em alguma daquelas gavetas. Maron tentava imaginar como era grande a sua tristeza, sem poder ler nem acompanhar os desenhos sendo feitos, trancado numa gaveta... Se ao menos soubesse em qual gaveta, quem sabe tivesse uma chance de vê-lo, de conversar com ele...
Mas a situação real era bem diferente do que Maron imaginava. Na verdade, Ren não estava mais naquela casa. Foi dado de presente ao jardineiro, que vinha semanalmente cortar a grama do jardim, e sempre se queixava de não enxergar de perto. O óculos foi perfeito para ele. Passou a ler nitidamente as recomendações, no verso dos pacotinhos das sementes que plantava.
Quando o jardineiro voltou para sua casa, o óculos também teve grande utilidade, permitindo que ele fizesse muitas coisas que já estavam se tornando impossíveis. Ficou radiante com o presente, e muito agradecido, tanto que comentou com a “patroa”: “Um óculos muito bom, eu posso enxergar todas as letrinhas!” E ela também se entusiasmou: “Que armação bonita, toda prateada! Deve ter custado muito caro! Que presentão!”
Ren animou-se um pouco com aquelas palavras. Sentiu-se reconfortado em saber que teria uma nova casa, mas seria muito difícil reconstruir sua vida, criar novos hábitos. A perda do amigo também o entristecia muito, assim como a ausência do computador, a única coisa que o alegrava. Pelo menos tinha a telinha do celular do jardineiro, e até que achou interessante a tarefa de ler as inscrições nos pacotinhos de sementes.
Em poucos dias, Ren habituou-se com sua nova vida. Não achava nada confortável viajar pendurado na gola da camisa do jardineiro, mas conseguiu decorar os nomes de várias plantas, e se distraía pesquisando os telefones na telinha do celular. Não fosse a saudade do amigo Maron, talvez a vida andasse bem. Compreendeu então que de amigo a gente não se esquece. “Quem sabe”, pensava sempre, “um dia ainda o encontre...” E com esse pensamento, tentava deixar a saudade de lado.
Semanalmente o jardineiro o levava à sua antiga casa, sempre pendurado na gola da camisa, a não ser quando precisasse ver um detalhe, plantar alguma muda ou semente. Porém, nessas horas, Maron estava sempre lá dentro, e o encontro dos dois nunca acontecia. 
 Um dia, o jardineiro teve que ir na agropecuária, no Centro, para comprar novas sementes, e o levou, como sempre, pendurado na gola. Ao ser colocado no rosto para examinar os nomes dos pacotinhos, ouviu uma voz conhecida: “Bom dia, jardineiro, tudo bem com você?”
Era o dono de sua antiga casa, e bem defronte a seus olhos estava o amigo Maron. Foi um encontro tão inesperado e emocionante, que os dois ficaram mudos, se olhando.
Perguntou o dono da casa: “Gostando do óculos?”. O jardineiro nem sabia como elogiar o presente: “Se tô gostando? É uma maravilha! Agora tô enxergando tudinho, tudinho! Foi um presentão que o senhor me deu, pode acreditar!”
Durante o diálogo, Ren e Maron não pararam de se olhar, e disseram coisas em silêncio –, um poder que só as coisas possuem.
Disse Ren: “Olá, meu amigo! Que bom ver você!”
Maron ficou embaçado de emoção. Mas respondeu: “Sinceramente, meu amigo, pensei que ainda estivesse trancado na gaveta. Estou muito feliz em vê-lo trabalhando novamente! E então, está gostando do que vê?”
 “Tenho novas tarefas. Agora, gosto de ver plantas, sementes... Mas ainda vejo muita coisa virtual. Não em computador, mas no celular. A telinha diminuiu...”
Os dois riram muito, e lágrimas de alegria embaçaram suas lentes.
“É isso, meu amigo. Nossa vida é ajudar os humanos a ver o mundo”, disse Maron. “É uma missão muito nobre, você já pensou nisso?”
Ren demorou-se refletindo, antes de responder: “Você falou uma verdade. Nós vivemos para ajudá-los a viver... Sem dúvida, essa é uma nobre missão! Nunca havia pensado assim...”
Mas o diálogo foi interrompido bruscamente com a despedida dos dois homens. O jardineiro voltou a agradecer o valioso presente, pendurou Ren na gola da camisa e saiu para a rua. Só houve tempo para Maron gritar: “Ren, meu amigo! Seja feliz! Nós nos encontraremos quando Deus quiser!”
Durante todo o caminho, Ren pensou nas palavras de seu amigo. Elas o levaram à importante descoberta, do quanto é realmente nobre e valioso o ato de ajudar um ser humano a enxergar o mundo. Ao ter consciência dessa verdade, sentiu que ela transformaria sua vida. Não seria mais infeliz, pois agora teria uma razão de viver. Estava realizado, e por isso, calmo e seguro, como seu amigo Maron.
Que bom poder encontrá-lo de vez em quando...



domingo, 10 de julho de 2016

• HISTÓRIAS DAS COISAS – 12 • A volta da faquinha Azul

HISTÓRIAS DAS COISAS (objetos como  personagens), são publicadas mensalmente, desde agosto de 2015.
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 GRANDES EVENTOS
História 7
A volta da faquinha Azul
(Continuação de Altos e baixos – maio de 2016)


O Torneio Tirinhas é sucesso total, depois da série de recordes, com os dois facões – Prata e Dourado – revivendo seus tempos de glória.
Nem parece que há pouco mais de seis meses, uma paralização das suas atividades, motivada pela morte do Pote de Orégano, levou o facão Prata a uma crise de depressão. Ele e seu amigo Dourado estiveram a ponto de se isolar, voltando a morar na distante gaveta da churrasqueira. Quem os dissuadiu dessa ideia desastrosa foi a faquinha Azul, que na época atuava no Torneio, em dias alternados com o Prata. Durante uma tensa reunião da diretoria, ela propôs reabrir o Torneio das Tirinhas com a volta da dupla Prata e Dourado, outrora muito famosa. Ela renunciaria a atuar, em benefício deles. Os dois facões relutaram, mas acabaram aceitando a proposta com a condição de que ela fizesse “apresentações especiais” quando convidada. O que, passados mais de seis meses, nunca aconteceu... 
Como o prometido convite não chegava, a faquinha Azul ia ficando cada vez mais isolada e triste, assistindo ao sucesso dos dois facões somente pela TV. Para sobreviver, ela acabou tendo que aceitar as tarefas menores da cozinha. Mas não podia se conformar em envelhecer daquela maneira. Sabia do talento, da habilidade e capacidade que possuía.
Um dia aconteceu um fato que transformaria sua vida. Faquinha Azul trabalhava na fritura de um bife, tarefa que aceitara na falta do que fazer, ao lado do Garfo de Espeto, um jovem recém-chegado, que iniciava suas atividades profissionais. “Eu sou seu fã”, comentou de repente o Garfo, com um derretido olhar de admiração. Surpresa e meio envergonhada de estar ali, numa atividade menor, sem público algum, ela perguntou: “Você já me viu antes?”
“Eu não perdia nenhum espetáculo seu! Quando não podia ir no estádio, assistia na TV! Eu acho você o máximo! Você tem muito mais estilo do que aquele facão...!”
Na situação em que se encontrava, sentir-se assim admirada foi um verdadeiro alento.   Em pouco tempo tornaram-se amigos e confidentes.
Garfo de Espeto a idolatrava. Queria saber de sua vida, queria saber de tudo o que fosse dela, ouvir tudo. Para a faquinha Azul, essa nova amizade caiu do céu. Tudo o que precisava era de um amigo assim, para desabafar a angústia que sentia. Contou a ele toda a sua vida, falou da grande admiração que sempre teve pelo facão Prata, da amizade entre os dois, contou que ele foi seu mestre, que a defendeu e incentivou no início de sua carreira, e que por isso deve a ele o seu sucesso. E quando o viu naquela situação horrível, tendo em suas mãos a possibilidade de salvá-lo, nem vacilou! Ficou feliz em poder retribuir, pelo menos um pouco do que recebera...
Contou depois que admira muito a amizade entre o Prata e o Dourado: o que um faz o outro apoia, sempre foi assim. Por isso, a atitude estranha do Dourado, não cumprindo a promessa que lhe fez e afastando-se, largando-a de lado... no seu entender foi compartilhada pelo Prata! Ambos sabem muito bem o mal que causaram, o quanto era importante para ela manter-se no torneio! Achava essa atitude, no mínimo, estranha e contraditória, pois eles sempre agiram com lealdade, sempre foram justos e honestos. “Uma coisa muito estranha mesmo!”, repetia. Por isso a decepção foi assim tão grande, difícil de suportar! Contudo, ela é otimista, garantiu que não irá se abater. Disse estar disposta a reagir, pois sabe o talento que tem, e ainda pode atuar como antes.
Em resumo, foi isso o que contou a faquinha Azul. Garfo de Espeto, sempre atento, ouviu, comovido, toda a história. E pensava “como a realidade é tão diferente daquilo que aparenta! Quem poderia imaginar que tudo isso ocorria nos Torneios das Tirinhas, por baixo do pano, escondido do público, oculto dos repórteres...”
Com essa revelação, a faquinha Azul, se tornou para ele mais próxima, mais real do que nunca. Ele sentiu-se mais que um amigo. Apaixonou-se por ela...
Enquanto isso, bem longe dali, nos escritórios da diretoria do Torneio Tirinhas, os dois facões mantinham uma conversa com o Diretor de Eventos sobre o convite de “participação especial” para o próximo espetáculo.
“Por favor não insistam”, dizia o diretor, “eu sei que vocês prometeram e sei o quanto prezam a amizade com a Azul. Isso é muito louvável, mas...”
O Prata interrompeu: “Então, se o senhor compreende, há de concordar! E além de tudo ela é ótima, nós todos sabemos disso!” E o Dourado completou: “Acho que só vai enriquecer o espetáculo! A faquinha Azul é muito querida do público! Por favor, permita- nos convidá-la...”
O diretor passou o lenço no rosto, ajeitou a gravata e continuou:
“É muito louvável mas muito arriscado. Isto aqui é um negócio para dar lucro, não é filantropia. Não podemos desperdiçar as oportunidades. Nós tivemos a sorte de acertar com a ideia da dupla. Deu certo. Vocês também atravessam uma boa fase, estão batendo recordes, e recordes atraem público! É o público que nos interessa, é o que nos mantém vivos! E não estou disposto a permitir que nada, exatamente nada, mude o rumo positivo em que estamos! Esta decisão é definitiva, e para o bem de nós todos, podem estar certos!”
Assim, mais uma vez a proposta dos facões foi recusada. Os dois saíram da reunião, novamente tristes por serem impedidos de convidar a faquinha Azul, sua amiga de muito tempo. Tanto o Prata quanto seu amigo Dourado se sentiam constrangidos de dizer isso a ela, mostrando-se incapazes de cumprir a promessa que lhe fizeram...
“Já sei!” disse de supetão o Prata. Vamos mandar a ela um convite para a plateia!”
Dourado percebeu o plano: “Você não está pensando em...”
“Exatamente!” – Emendou Prata – “É isso mesmo! Vai ser de surpresa!”
Dourado lhe deu um tapa nas costas: “Você é genial! Não sei como não pensei nisso antes!” E saíram satisfeitos em direção à gaveta.
Dias depois a faquinha Azul recebe pelo Correio um passe de entrada, junto com um bilhete assinado pelo Dourado, comunicando que haveria um lugar na plateia reservado para ela, no espetáculo do dia seguinte.
Achou aquilo muito estranho. Depois de tanto tempo, um convite assim... totalmente informal, num papel rabiscado, sem o timbre da empresa! O que estaria acontecendo?
Mesmo com essas dúvidas, nem vacilou, e no dia seguinte lá estava ela, no lugar reservado.
Começa o espetáculo. Os auxiliares colocam o pão e o dividem ao meio, entra em cena o novo Pote de Orégano, e finalmente o facão Prata. Antes dele iniciar o primeiro corte, vira-se para o público e diz: “Senhoras e senhores, tenho uma surpresa reservada. Para fazer esse espetáculo, vou chamar alguém da plateia. Alguém que todos conhecem... a faquinha Azul!”
Foi um choque. Azul estremece, fica por um momento atônita, mas levanta-se e caminha até o palco. No camarim da diretoria, todos estão atônitos. Mas, nessa altura, não podem fazer nada, é só torcer para dar certo. Se der errado, os dois facões estarão demitidos.
Poucas palmas a princípio, mas quando a faquinha Azul sobe ao palco, é ovacionada pelo público. Não há qualquer diálogo. Simplesmente Prata se afasta e a deixa sozinha, para iniciar o espetáculo.
A faquinha Azul jamais vivera um momento como esse. Um verdadeiro teste para seus nervos, para sua capacidade de controle emocional. Ela fecha os olhos, pede ajuda a Deus e inicia o corte da primeira tirinha.
As dificuldades são grandes: faz muito tempo que ela não atua, sente-se insegura e despreparada. O pão está rachado, quebradiço, e o queijo tem que ser muito dividido para forrar toda a superfície.
Um horror!
A faquinha azul vacila, está a ponto de desistir. De repente, lembra a sua primeira estreia. Não foi muito diferente. Naquela ocasião, era uma desconhecida, tinha o público inteiro contra, esperando qualquer deslize seu para vaiá-la, e no entanto se deu bem. Talvez a vida a coloque nessas situações para que ela cresça. Pensando assim, ganha forças para reagir e enfrentar a situação.
Os primeiros cortes foram decisivos. Agora ela ajeita os farelos que caíram, e corta rente, de forma precisa. Os aplausos que ouve a incentivam. Continua concentrada, cortando e consertando os defeitos do pão, empurrando as sobras do queijo, e mantendo sempre espaços mínimos entre as tirinhas. O final é bem tranquilo, pois as maiores dificuldades já haviam sido superadas.
Mas jamais poderia esperar o que virá a seguir.
A contagem final anuncia simplesmente... o recorde mundial de todos os tempos! 25 tirinhas!
Faquinha Azul não credita. Deve ser um engano! O recorde é do Prata, ela sempre achou que a marca de 24 era insuperável. Mas não houve engano. A voz do alto-falante confirma as 25 tirinhas!

Facão Prata corre ao seu encontro, para abraçá-la. Mas antecipa-se uma figura desconhecida: o Garfo de Espeto. Ele a abraça e beija demoradamente. Facão Prata estanca, surpreso, olhando os dois, sem entender nada. Quando se separaram, ele diz, muito sem jeito: “Parabéns, faquinha... você merecia. Você é fantástica.” Ela então o abraça com força, chorando ao dizer: “Obrigada, meu amigo, você não esqueceu de mim...”