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quarta-feira, 9 de novembro de 2016

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Fabyola Sendinno •FEIRA DE MANGAIO • Sivuca e Glorinha Gadelha

Faz parte do CD NÓS QUATRO (Gravadora Biscoito Fino)

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

• ARTIGO REESCRITO • Propaganda enganosa





Propaganda enganosa

As agências de publicidade seguem um código de ética, preocupadas com o que chamam de “propaganda enganosa”. De acordo com o Código de Defesa do Consumidor, propaganda enganosa é crime e está inserida no artigo 37, desde setembro de 1990. Porém, o código considera enganosa somente a mentira óbvia, escrachada, como prometer preços mais baixos do que custarão de fato ou informar erradamente o conteúdo ou o peso dos produtos.
Da mesma forma como existem advogados habilidosos em tornar legais os atos corruptos de seus endinheirados clientes, muitos publicitários são especialistas em encontrar maneiras inteligentes de enganar o consumidor sem que possam ser acusados de enganadores. A lei os deixa à vontade para criarem, em suas campanhas, promessas de sonhos e de estilos de vida completamente irreais e nocivas à sociedade.
Bancos cobram taxas altas por um atendimento insatisfatório, com grandes filas e caixas vazios, fazem manutenção precária de seus terminais eletrônicos, esquecem da prioridade real aos idosos e deficientes, obrigando-os a um tempo de espera insuportável. Mas na comunicação publicitária, só mostram pessoas felizes e realizadas, por se tornarem seus clientes. Avós com netinhos, mães com seus filhos, todos sorridentes, prósperos, como se aqueles péssimos serviços pudessem tornar felizes as famílias que conseguiram um empréstimo, abriram uma conta corrente ou uma caderneta de poupança. Mostram uma realidade fictícia, só existente nos anúncios. Isso é propaganda enganosa! Ou o significado da palavra “enganosa” precisa ser revisto.
Empresas de telefonia e de internet exploram o consumidor de todas as maneiras. São infindáveis os processos contra elas na Justiça, de cobranças abusivas, de linhas bloqueadas por suposta falta de pagamento, de serviços cobrados sem que fossem solicitados, e uma enorme lista de danos causados ao consumidor. E são exatamente essas empresas que prometem, em seus comerciais, um verdadeiro paraíso de vida a quem adquirir os seus planos.
Fabricantes de automóveis vendem seus novos modelos incluindo um estilo de vida totalmente baseado na sua avançada tecnologia. Nos filmes e anúncios, o consumidor se torna atraente, irresistível e potente como o carro que está comprando.
Tão charmosa quanto nociva, a propaganda de bebida alcoólica é dirigida aos jovens, fazendo aumentar o número de adolescentes alcoólatras. A lei proíbe exibir cenas de consumo, mas essa lei é facilmente driblada pelos criadores publicitários, mostrando as garrafas de cerveja geladinhas sendo abertas e passadas de mão em mão por jovens atraentes e sorridentes, esbanjando charme e atraindo consumidores. Tudo rigorosamente dentro da lei, sem mostrar ninguém bebendo.
Essas são formas de enganar absolutamente legais. É a propaganda que engana a alma das pessoas. Mas há ainda uma forma de enganar tão corriqueira, que se banalizou. Muita gente até repete com naturalidade: “Isso me custou só nove e noventa e nove”.
Por que não dez? Seria mais fácil de falar, de digitar o preço no produto e de contabilizá-lo. Então por que as lojas não procedem assim, preferindo ter mais trabalho?
Trata-se de uma enganação já instituída. Levantei a questão com um amigo, que me respondeu: “Mas é assim, até nos Estados Unidos!” Realmente esse procedimento é adotado em todo o mundo, o que, de forma alguma o isenta de ser enganoso. Explica mas não justifica.
É claro que 9,99, matematicamente, é menor do que 10. Portanto, legalmente, não se está enganando ninguém. Mas todos sabem que esse preço quebrado dá impressão de ser bem menor do que a sua irrisória diferença. E o que significa “dar impressão”? Significa parecer uma coisa que, na realidade, não é. Ou seja, enganar. Uma maneira subliminar de enganar, e tão eficiente, que se alguém reclamar o centavo de troco, corre o risco de passar por sovina.
A propaganda vive criando novos ardis emocionais para, de forma direta ou indireta, convencer as pessoas (denominadas por ela de “consumidores”), de que precisam comprar aquele produto anunciado. Diariamente, centenas de produtos e serviços bombardeiam o público com mensagens publicitárias, prometendo vantagens incríveis, oferecendo sempre o melhor. Mesmo que o próprio fabricante saiba que não é.
Esse processo, em si é enganoso, ainda que os dados técnicos e o preço anunciados sejam corretos. Para que não fosse enganoso, todo produto teria de ser realmente o melhor e todo serviço deveria ser o mais eficiente. Enfim, tudo o que fosse anunciado teria a obrigação ser exatamente como prometido nos comerciais.
Porém, justiça seja feita, há produtos que mostram suas qualidades sem prometerem que são os melhores. Outros, cuja matéria prima, o processo de fabricação e os benefícios causados são de tal qualidade, que os permite intitularem-se, verdadeiramente, os melhores. E com certeza existem serviços que não estão errados ao se afirmarem mais eficientes do que os demais. Para esses, cuja propaganda não engana ninguém, é justo que se faça esta ressalva.
Ressalvem-se também as entidades, em geral. Entidades beneficentes de todos os gêneros, inclusive as esportivas, que dependem de ajuda social e comunitária para sobreviver, usam na sua comunicação a mesma técnica da propaganda, mas não prometem vantagens nem recompensas. Essa comunicação sequer pode ser considerada propaganda, pois a propaganda pressupõe o lucro.
Resta ainda a propaganda política, essa quase sempre enganosa. Antes de qualquer eleição, as mensagens dos Partidos prometem que seus candidatos resolverão os problemas da nação. Todos eles se anunciam honestos e capazes. Muitos fazem campanhas tão bem planejadas e eficientes, que convencem milhões de pessoas e finalmente se elegem. Alguns deles, sem a menor cerimônia traem o povo que os elegeu, agindo de modo inverso ao que prometeram. Põem a culpa de sua gestão infeliz nos governos anteriores, valendo-se também da propaganda enganosa, enquanto os corruptos costumam atribuir a corrupção aos adversários políticos. Tudo isso orquestrado por competentes publicitários, “marqueteiros” políticos, regiamente pagos, que fazem propaganda enganosa em altíssimo nível.  
Muitos dizem que esses são males das sociedades capitalistas. Estão equivocados, porque a publicidade usa os mesmos truques também nas sociedades comunistas (ou socialistas, como preferem ser chamadas). Com propaganda enganosa, porém muito eficiente, os dirigentes convencem o povo a aceitar passivamente uma vida sem conforto, enfrentando filas para conseguir alimentos, com a Saúde e o Ensino deficientes, sem liberdade de reclamar, e ainda assim consegue deixá-los orgulhosos do regime que os domina. Essa é a propaganda mais enganosa de todas.
Então o que fazer contra os efeitos nocivos da propaganda enganosa? Com certeza nenhuma ação externa será possível, a não ser um mero comentário, como o que estamos fazendo. Mas uma eficiente atitude interna pode e deve ser tomada. Após ter-se consciência desse processo, é necessário vigiar a própria mente, para não se contaminar com os apelos sedutores da propaganda enganosa, que provocam o desejo constante de consumir. A terrível doença do consumismo.
O antídoto contra essa doença é o autoquestionamento imparcial, sincero e com total honestidade.
Atenção ao desejo repentino de comprar um carro novo. Ele pode ter sido motivado por aquele filme supra bem produzido, mostrando o status de quem possui um automóvel com tamanha beleza e tecnologia. Uma vez descartada essa armadilha, a opção de ficar com o carro antigo, que ainda está ótimo, talvez seja a melhor. Mesmo que não possua carro algum e dependa de transporte público, isso não será motivo para se sentir inferiorizado. Ninguém é superior ou inferior a outro simplesmente pelos bens que possui, como a propaganda enganosa tenta convencer.
É preciso ficar sempre atento ao consumismo que a propaganda enganosa impõe aos consumidores.
Por exemplo, será que aquela roupa cara e charmosa do anúncio a tornará tão linda quanto a bela modelo da foto? Quem sabe, já possua roupas suficientes no seu guarda-roupas?
Os cristais microscópicos vistos de pertinho no filme, penetrando no tecido e eliminando o encardido da roupa, existirão realmente, ou será um truque para fazer as pessoas comprarem esse sabão mais caro?
A propaganda enganosa, além de incentivar o consumismo de produtos, interfere igualmente na escolha dos serviços.
É tão importante mesmo trocar de provedor e ter uma internet mais rápida, ainda que a atual funcione satisfatoriamente? Pense até que ponto está se deixando iludir por aquela garota linda e sensual do filme da TV.  
Atenção também aos comerciais onde o gerente do banco trata o cliente como um rei, e todos saem da agência sorrindo e satisfeitos. Eles visam tornar esse banco simpático e familiar, motivando o desejo de abrir uma conta.  Quem se mantém atento, sabe muito bem que isso é uma enganação! Na realidade, o dia a dia de qualquer banco é bem diferente do que mostra a propaganda!
Por último, a propaganda enganosa interfere igualmente na aceitação das ideias políticas.
No vídeo, o candidato afirma que vai organizar o país e acabar com a corrupção. Evitemos de cair nessa armadilha. Antes de acreditar é melhor investigar bem a sua vida pregressa.
O Partido mostra, na sua propaganda, que tem como diretriz a Ação Social. Será mesmo? Nos “documentários” produzidos pela propaganda, essas ações funcionam muito bem, deixando multidões de pessoas felizes. Mas como será na realidade? É necessário investigar, pode ser apenas uma estratégia de marketing montada, uma enganação, para manter o poder!
Da mesma forma, as obras de viadutos e hidroelétricas mostradas nos filmes, com muitas máquinas e operários trabalhando, podem ser cenas montadas para enganar o povo, como em diversos casos conhecidos.
Concluindo, a única maneira de combater a propaganda enganosa é a reflexão sincera, honesta e pessoal. Cada indivíduo deve ter consciência de suas necessidades reais, descartando as ilusórias. Para conseguir tal lucidez, precisa ficar sempre atento aos truques do marketing publicitário, que o induz constantemente a consumir.
Disfarçada pelas belas imagens e palavras bem articuladas da propaganda enganosa, está a realidade dos interesses egoístas de fabricantes que só visam o lucro, de políticos corruptos, ou de quem só pretende aliciar o povo.


sendino.claudio@gmail.com

• HUMOR COM CARTUM •




HALLOWEEN

31 de outubro é o Dia das Bruxas, ou Halloween, comemorado em muitos países do mundo, principalmente nos Estados Unidos.

Mas os turistas norte-americanos já estão cansados de Halloween. Quando vêem ao Brasil, querem ver mesmo é samba! Só os brasileiros é que não compreendem isso…



terça-feira, 6 de setembro de 2016

• HISTÓRIAS DAS COISAS – 14 • A pasta Tudo



HISTÓRIAS DAS COISAS (objetos como  personagens), são publicadas mensalmente, desde agosto de 2015.
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A Pasta Tudo

No arquivo de documentos há uma pasta que destoa das outras: a Pasta Tudo. Ela jamais foi aceita, sempre malvista por todas as outras. No bate-papo informal entre elas, depois do expediente e até mesmo durante o trabalho, ela é constantemente criticada e ridicularizada.
“Não posso aceitar que os estratos bancários, que me pertencem por direito, passem antes por essa impostora!” – esbraveja a Pasta Bancos, visivelmente irritada – “Ela mistura os meus estratos com notinhas de compras, com talõezinhos vulgares e até rabiscos de rascunho! Isso é um ultraje!” E a pasta Médicos acrescenta: “Ela açambarca até as receitas dos médicos e os resultados de exames! Não respeita nem a saúde dos humanos!” A Pasta Impostos põe mais lenha na fogueira: “Ela bagunça tudo! Já atrasou o pagamento do IPTU, perdido naquela zorra!” A Pasta Garantias também a agride: “E que nome ridículo, completamente sem sentido: ‘Tudo’! Vejam só! Tudo significa... tudo! Quer dizer que ela se acha a dona de nós todas! Que pode ficar com tudo o que nos pertence!”
Todas se mostram igualmente indignadas, e agressões desse tipo são cada vez mais frequentes, alastrando a revolta por todo o arquivo. Ninguém tolera mais sequer olhar a Pasta Tudo, que a cada dia fica mais abarrotada, tanto de importantes documentos quanto de notinhas simples e até de cópias xerox, enquanto as outras vão minguando, desatualizadas e raramente consultadas. Os humanos se habituaram a buscar diretamente na Pasta Tudo e colocam nela todas as contas e documentos novos.
A situação, já insuportável, chegou aos ouvidos do Diretor do arquivo, que acaba de solicitar uma reunião geral das pastas em seu escritório, para tentar um acordo. 
O Diretor inicia a reunião colocando o problema de maneira formal: diz que percebeu “um pequeno desentendimento entre uma das pastas e as demais, quanto ao nome e função”, e que “esta reunião deverá restabelecer o bom andamento do trabalho”.
Em seguida, pede que designem uma representante das pastas “insatisfeitas”, para apresentar os argumentos sobre o “porquê da insatisfação”.
Levantam-se imediatamente as mais revoltadas: a Pasta Bancos, a Médicos, a Impostos e a Garantias.
“Muito bem... Então, cada uma falará por vez”, diz o Diretor, “e depois cederei a vez à Pasta Tudo, para sua defesa.”
A aparente organização inicial não dura mais do que isso, pois todas falam ao mesmo tempo. A Pasta Bancos, com sua voz grave e poderosa: “Ela está nos roubando! Está se apropriando do que nos pertence!” As outras gritam juntas: “Ela está bagunçando o nosso arquivo!” “Ela se apropriou dos documentos, das contas de luz, de água e de gás...” “E dos contratos, das notas do automóvel e dos consertos da casa!” “Ela é uma impostora!” “Ela se aproveita do nome que tem e pega tudo! Está nos deixando vazias!” “Ela está nos matando!”
“Chega!!!!” – Grita o Diretor. Como um rádio sendo desligado, todas se calam, mas com a respiração ofegante, bufando palavras reprimidas. E o Diretor conclui:
“Quero ouvir a Pasta Tudo. E exijo que todas mantenham respeito!”
A Pasta Tudo entra na sala, sob um murmúrio baixo e contínuo, formado pelos cochichos das outras. O Diretor, impassível, a acompanha com o olhar até que ela ocupe o seu lugar, visivelmente amedrontada, diante de tantos olhares ameaçadores.
“Quero ouvir as suas razões para agir do modo com está agindo com suas companheiras”, diz o Diretor. Mas a gritaria recomeça: “Que razão?” ”Sem essa de razão!” “Que negócio é esse de razão?” “A razão é acabar com ela!”
“Chega!!!!” E dessa vez o Diretor dá um soco na mesa. “Exijo respeito!!! Quero ouvir a Pasta Tudo e se outra interromper será convidada a se retirar!”
Só assim elas se contêm, mas o clima permanece tenso. Pasta Tudo está tremendo de medo e não consegue sequer concatenar os pensamentos. Impossível falar qualquer coisa nessa hora. E no entanto o que ela mais deseja é poder explicar que jamais pensou em tirar nada das outras; que é apenas uma pasta provisória, com os papéis que estão em uso e que todos serão arquivados nas outras, mais tarde... Sua missão no arquivo é evitar o abrir e fechar constante das outras pastas, para dar-lhes segurança e comodidade. Mas como explicar tudo isso nesse ambiente de ódio e revolta? Quem iria acreditar? Quem ao menos a ouviria?
Faz-se um silêncio de morte. A Pasta Tudo sente-se encurralada, acha que todas vão atacá-la assim que ela fale. E para piorar, vem a cobrança do Diretor:
“Fale, explique a situação! Defenda-se!”
Pasta Tudo faz um grande e último esforço para conseguir falar. As palavras não saem, mas devido ao grande esforço, uma de suas alças arrebenta e ela, abarrotada como está, vomita todo o seu conteúdo, numa avalanche de papéis que se espalha sobre a mesa. São contas de luz, fotografias, rascunhos, atestados médicos, exames, receitas de comida e toda sorte de notas fiscais, de inúmeras lojas e supermercados. E a pasta, semivazia, cai inerte, defronte ao Diretor.
 “O que foi que aconteceu? O que foi que aconteceu?” – Gritam todos, aflitos por se verem ali, derramados na mesa. “Por que nos expulsaram?” – Grita a conta de gás. “Por que nos espalharam dessa maneira?” – Grita um exame de sangue.   
  “Vocês estavam prisioneiros, agora vão se libertar!” – Responde, com voz pausada, o Diretor.
Todas as outras pastas, ao verem aquela papelada espalhada à sua frente, se manifestam: “Meus atestados médicos estão de volta!” ”Oh, minhas contas de luz, todas aqui!” “Minhas notas ficais, vou tê-las novamente!” “Meus extratos de bancos, eles voltarão para mim!”
Mas as reações imediatas dos documentos amontoados sobre a mesa são totalmente inesperadas e chocantes. Quem primeiro fala é a graciosa Notinha Fiscal de butique:
“Quem disse que somos prisioneiros? Ao contrário, agora é que estamos livres!”
As pastas se entreolham, achando aquilo muito estranho. Mas o que o Exame Médico diz em seguida é que as deixa perplexas:
“Sou casado com a Notinha Fiscal e ela disse a pura verdade! Nós éramos antes prisioneiros, cada um trancado em sua pasta. Agora convivemos todos em perfeita harmonia!”
 O Diretor intervém: “Vocês estão completamente fora de ordem! A Pasta Tudo, ao juntar vocês, desorganizou todo o arquivo!”
“Está enganado, senhor! Quando precisamos ser usados, nós nos apresentamos, estamos sempre dispostos!” – retrucou o Exame Médico. Em seguida, o Certificado de Garantia, grampeado à Nota de Compra, completa:
“Nunca deixaram de nos encontrar, sempre atendemos prontamente!” 
E a Nota de Compra continua: “Fizemos aqui muitas amizades, convivemos com assuntos diferentes, trocamos experiências... Nós vivemos felizes, finalmente!”
“A Pasta Tudo foi a nossa libertação!” – Grita o Extrato Bancário.
Tanto o Diretor quanto as outras pastas, cada vez mais perplexos, não sabem que atitude tomar. Enquanto isso, a Pasta Tudo parece completamente inconsciente, imóvel, esparramada na mesa. O Diretor entende ser a oportunidade para restabelecer a ordem e se dirige a todos: 
“De qualquer forma, todos terão de voltar às suas antigas pastas. A Pasta Tudo se desmantelou, parece que chegou ao fim.” “Ohhhhh!” – Exclamam os papéis espalhados na mesa, enquanto as pastas não escondem o riso de vingança estampado em suas capas.
Mas esse contentamento acaba logo ao verem a Pasta Tudo, lentamente se levantando. A gratidão demonstrada pelos papéis lhe revigorou a energia. Com esforço, ela se põe de pé e finalmente consegue falar:
“Perdoem eu não ter morrido, como vocês desejavam...” – Diz, ironicamente. “Mas parece ter ficado claro que eu não sou tão má assim...”
“Oh, minha pastinha querida!” – Grita a Notinha Fiscal. “Que bom ver você recuperada!” Nesse instante, da Partitura Musical, escondida entre os documentos, emana uma valsa de Chopin em solo de piano, e todos os papéis choram de felicidade. Menos as outras pastas, sisudas, caladas, e o Diretor pensando numa solução para o caso.
A Pasta Tudo, agora recuperada, continua:
“Os papéis que carrego têm liberdade para ir e vir. Eles podem ficar divididos como vocês querem... Ou podem ficar todos juntos comigo. Não sou eu quem decide”.
As pastas, pela primeira vez caladas, embora sisudas, ouvem o que a Tudo tem a dizer.
"Tenho certeza que depois de algum tempo, todos vão naturalmente fazer parte da organização. Quando ficarem mais velhos, amadurecerem, terão de fugir da agitação e descansar nos arquivos das suas pastas... Por enquanto estão no vigor da juventude, são atuantes, a qualquer momento podem ser requisitados pelos humanos, para conferir, para demonstrar sua validade! Por favor, deixem que eles curtam a juventude, que se conheçam, que fiquem misturados!”
Pela emoção que transmitiu em cada palavra de seu discurso, a Pasta Tudo estava verdadeiramente “iluminada”. Foi tão convincente, que fez as pastas passarem de revoltadas a pensativas. Uma olha a outra, em silêncio, e todas refletem melhor sobre suas próprias convicções. O Diretor ajeita o óculos e coça os poucos cabelos que lhe restam.
Vagarosamente, todos os papéis começam a ocupar novamente a Pasta Tudo, que agora se mostra totalmente recuperada do forte abalo emocional.
O Diretor faz suas conjecturas. Talvez seja melhor continuar tudo do jeito que estava. E agora lhe parece o momento certo de tomar essa decisão.
“Bem...” – Inicia a falar, calma e pausadamente: “Eu proponho que se dê um prazo de seis meses de permanência de documentos na Pasta Tudo. Depois desse tempo, os documentos terão de ocupar as suas pastas nativas. A Pasta Tudo servirá como uma primeira habitação para os papéis de todos os tipos, mas somente enquanto forem jovens. Todos aceitam?”
As pastas, como sempre, se entreolham. Mas dessa vez, com um semblante mais tranquilo. A representante principal, a Pasta Bancos, se manifesta:
“Se o senhor Diretor garantir que o prazo será cumprido... Aceitamos”.
“Cumpriremos o prazo, podem estar certos.” – Adianta-se a Pasta Tudo, com firmeza e um discreto sorriso. E o Diretor suspira aliviado:
“Muito bem, estamos entendidos. Podemos voltar ao trabalho.”